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Uzbequistão: madrassas, metro soviético, Chevrolets brancos e plov

Homem a servir comida quente de uma panela grande ao ar livre com mesquita e carros ao fundo.

O território das madrassas de Tamerlão e dos minaretes que parecem cintilar ao sol é, ao mesmo tempo, o das estações de metro soviéticas, dos Chevrolets e de um prato capaz de pôr qualquer um com água nos olhos.

É mais um “-istão” entre os muitos que desenham o mapa da Ásia Central - daqueles nomes que fazem quem nos ouve franzir a testa quando dizemos que vamos viajar para lá. Afinal, porque é que um tuga haveria de querer andar perdido num país de nome difícil e com um passado marcado pela União Soviética?

Entre madrassas e metro soviético no Uzbequistão

A resposta está na riqueza cultural, suficiente para envergonhar destinos bem mais falados e que, num período em que o Médio Oriente se tornou menos previsível, funciona como alternativa ao Irão no que toca à arquitectura. Há madrassas de azul intenso, mausoléus cobertos por uma azulejaria singular e minaretes coloridos que se alongam até ao céu. E, lado a lado com este testemunho vivo de uma civilização imensa e com a herança da mítica rota da seda, surgem marcas soviéticas como as estações de metro de Tashkent - autênticos museus subterrâneos que, ainda há poucos anos, nem sequer podiam ser fotografados.

O país que perdeu o mar

Dito o nome sem rodeios: Uzbequistão - hoje um país sem fronteiras marítimas porque ficou sem o mar que, durante muito tempo, lhe garantiu parte do sustento. Sim, ficou sem ele. Secou, vítima da ambição soviética que decidiu que o deserto seria o cenário ideal para uma produção intensiva de algodão. Era o mar de Aral, antes cheio de peixe e ladeado por cidades conserveiras; agora é um cemitério de barcos enferrujados, chaminés industriais sem propósito e trabalhadores intoxicados por um ar seco carregado de químicos usados nos campos de algodão, que acabaram despejados no solo riscado do antigo leito.

Samarcanda, Bukhara e Khiva: o lado luminoso

Mas esta é a face amarga do Uzbequistão. A parte luminosa vê-se nas noivas que posam para fotografias no Registan, em Samarcanda - a praça grandiosa enquadrada por madrassas, as escolas religiosas da era de Tamerlão, o poderoso governante que dominou a Ásia Central, o Afeganistão e o Irão (pois claro). Está também nos gatos que dormitam à sombra do cemitério moderno, junto à necrópole de Shah-i-Zinda, um complexo funerário único. E sente-se na tranquilidade das ruas pedonais de Bukhara e na vida que fervilha dentro das muralhas da cidade-oásis de Khiva (sem dúvida, a mais bonita das cidades uzbeques), entre minaretes que são obras de arte e palácios capazes de fazer sonhar até os descrentes mais empedernidos.

Carros brancos e arroz

A alegria aparece, ainda, nas estradas meio caóticas onde quase só circulam Chevrolets brancos. Há razões para isso: é o Governo que os fabrica em parceria com a UZAuto Motors, detentora da chancela Chevrolet; num país desértico e brutalmente quente, o branco ajuda a manter o carro mais fresco e disfarça melhor a sujidade; e, além disso, qualquer cor - tal como tudo o que vem de fora - é caro demais para uma população saída (ou quase) de um regime autocrata, onde os trabalhos forçados na produção de algodão só não recebem esse nome porque entram na “formação” de estudantes.

E a maior de todas as alegrias? Não, não é o futebol. É o plov! Meninos: há arroz; há arroz muito bom; e depois há plov, que outros -istões chamam de pilaf, feito por homens possantes à volta de um qoson, essa sertã gigante de fundo curvo onde se mistura arroz com tudo...


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