As gravações de videovigilância da rua no bairro da Cova da Moura onde Odair Moniz morreu, na madrugada de 21 de outubro de 2024, apontam para que o cozinheiro, de 43 anos, não tivesse uma faca na mão. A conclusão foi apresentada em tribunal por Cláudia Soares, inspetora-chefe da PJ responsável pela investigação do caso.
Imagens de videovigilância sobre Odair Moniz e a alegada faca
“Vendo as imagens de CCTV [circuito fechado de televisão] e ouvindo o som é claro que a vítima estava a resistir com violência à detenção por parte dos agentes. São agentes novos e com pouca experiência e estavam a ter alguma dificuldade em fazer a detenção. A vítima é violenta, dá um pontapé, tenta afastar uma das mãos do agente Bruno Pinto. Em momento algum se vê uma arma branca”, disse a testemunha taxativamente. “É a minha convicção de que não existia qualquer arma branca. Quando a vítima cai no chão não se vê qualquer arma branca”.
Perícias da PJ e o que foi dito no local pela PSP
A inspetora-chefe acrescentou que, nas análises do laboratório científico de polícia criminal, a faca apreendida “não tinha qualquer vestígio biológico”. “Se tivesse sido usada pela vítima, tinha de ter vestígios.”
Segundo a mesma testemunha, quando a PJ chegou ao local, as equipas policiais da PSP presentes na Cova da Moura não referiram “em qualquer faca”. Na sua perspetiva, se Odair a tivesse empunhado - como os agentes sustentam agora - o tema teria sido levantado de imediato no momento da chegada da PJ.
Cláudia Soares referiu ainda que, tendo existido confronto físico entre Odair Moniz e o agente Bruno Pinto, a vítima ficou com vestígios do agente, mas a faca continuou sem marcas compatíveis com utilização. Por isso, considerou ser “praticamente impossível que a faca tivesse sido usada pela vítima”.
Disparos, contexto no bairro e próximos passos em tribunal
Questionada pelo tribunal sobre se os agentes da PSP terão disparado com intenção de matar, a inspetora-chefe adotou cautela: “As imagens mostram que os dois agentes estão em dificuldade durante a detenção e que a vítima está à vontade, num espaço que conhece. Sei que o bairro é muitas vezes hostil à presença da polícia. Já morreram polícias na Cova da Moura, não é uma situação fácil de lidar. Eles estão com receio, claramente em desvantagem e foram agredidos. Quanto ao resto, com o devido respeito, cabe ao tribunal decidir. As imagens falam por si.”
A inspetora-chefe da PJ foi a última testemunha a prestar depoimento no processo, na manhã desta segunda-feira. Seguem-se as alegações finais do Ministério Público e dos advogados da família de Odair Moniz e do agente acusado de homicídio qualificado.
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