Saltar para o conteúdo

Estudo na Massey University em Palmerston North, Nova Zelândia: pellets ricos em amido vs fibra reduzem metano por unidade de leite

Homem com colete refletor usa tablet para monitorizar alimentação de vaca numa quinta com vacas ao fundo.

A pastagem é, regra geral, o alimento mais económico que um produtor de leite consegue disponibilizar, mas no fim do verão deixa de satisfazer plenamente as necessidades nutricionais das vacas.

À medida que a qualidade da erva desce, as vacas no fim da lactação - ainda a produzir leite e, ao mesmo tempo, a gestar o vitelo seguinte - começam a ficar com défice de energia.

Quando este desequilíbrio surge, há muito que os agricultores recorrem a concentrados em pellets para compensar.

Um estudo recente procurou perceber se pellets com mais amido ou com mais fibra poderiam fazer mais do que apenas sustentar a produção.

Em concreto, avaliou-se se a escolha do tipo de concentrado também alteraria a quantidade de metano emitida por cada unidade de leite produzida. Os resultados acabaram por surpreender a equipa.

Um vazio alimentar no verão

Em regiões onde as vacas leiteiras passam a maior parte do ano em pastoreio, é o azevém perene que suporta o efetivo.

Este tipo de erva desenvolve-se muito bem na primavera e no outono, mas o calor do verão reduz a densidade e a qualidade, precisamente numa fase em que vacas em gestação avançada continuam a precisar de energia.

Para colmatar esse intervalo, os produtores distribuem pellets - ou seja, concentrados - a par da pastagem.

A questão central era simples: será que o principal hidrato de carbono do pellet (amido ou fibra) muda as emissões de metano das vacas?

Maria M. Della Rosa, do Bioeconomy Science Institute (BSI), conduziu um ensaio com a sua equipa num efetivo em produção na exploração leiteira da Massey University, em Palmerston North, Nova Zelândia.

Quatro dietas em comparação

Os investigadores dividiram 72 vacas em quatro grupos. Todas se encontravam no fim da lactação. Um grupo manteve-se apenas em pastagem.

Os restantes receberam, em cada ordenha, cerca de 5 kg de pellets por dia: uma formulação rica em amido, outra rica em fibra, ou uma mistura equilibrada.

Para medir o que os animais expiravam, foram usadas duas unidades montadas em reboque que atraíam cada vaca com pellets e recolhiam amostras dos gases presentes no ar expirado. As unidades estiveram em funcionamento durante 36 dias.

Foram ainda utilizados colares para registar o tempo de ingestão e de ruminação. O leite foi pesado em todas as ordenhas e analisado quanto a gordura e proteína. No final, 60 vacas visitaram os equipamentos de alimentação.

O metano manteve-se praticamente inalterado

À partida, a previsão parecia razoável. Um alimento mais amiláceo concentra energia, enquanto um mais fibroso aumenta o volume, pelo que se esperava que cada opção empurrasse a emissão diária de metano numa direção.

No entanto, as leituras de gases contaram outra história. Com as quatro dietas, as vacas libertaram quantidades de metano diárias quase idênticas.

Trocar amido por fibra - ou até eliminar totalmente os pellets - teve um efeito mínimo no total.

Uma análise aponta a produção pecuária como uma das maiores fontes humanas de metano; por isso, um alimento que reduzisse emissões por animal teria um valor considerável.

Mais leite na presença de pellets

Já o leite mostrou um contraste claro. A suplementação com pellets aumentou a produção, e os maiores acréscimos surgiram com o amido.

As vacas com dieta rica em amido e as da dieta mista produziram cerca de 16% mais leite corrigido para gordura e proteína do que o grupo apenas com pastagem; o grupo com pellets ricos em fibra ficou entre ambos.

Os pellets mais amiláceos, formulados sobretudo com cereais, forneceram a energia mais facilmente utilizável. A produção aumentou em função da quantidade de amido ingerida por cada grupo.

Os teores de gordura e proteína no leite mantiveram-se semelhantes nos quatro grupos. Ou seja, não se tratou de um leite mais “rico”, mas sim de mais volume - uma diferença importante para a conta climática que se segue.

Diluir a pegada por litro

Com o metano estável e o leite a subir, a emissão por unidade de leite desceu aproximadamente 13 a 14% nos grupos de amido e misto, em comparação com a pastagem sem suplemento. Na prática, menos gás por copo, sem recurso a qualquer novo aditivo.

Até este trabalho, não existia uma comparação direta entre suplementação rica em amido e rica em fibra em vacas em pastoreio. Estudos anteriores testaram estes tipos de alimento em estábulos, ou em comparação com outras dietas, mas não frente a frente em contexto de pastagem.

A redução observada resulta de “diluição”, e não de uma queda na produção de metano. Cada vaca continuou a arrotar a mesma quantidade, mas esse total ficou distribuído por mais leite, diminuindo a pegada por copo.

Em regiões de produção baseada em pastagem - apontadas numa revisão como a espinha dorsal do setor leiteiro - estas poupanças podem tornar-se relevantes quando multiplicadas por grandes efetivos.

Ritmo de ingestão e metano

Os colares revelaram ainda um segundo padrão. As vacas que comiam e ruminavam mais devagar, passando mais minutos por kg de alimento, tendiam a apresentar uma pegada de metano mais elevada por unidade de leite.

A relação foi moderada, e é provável que as vacas mais lentas não estivessem a libertar mais gás do que as restantes. O mais provável é que produzissem menos leite, fazendo subir o valor por unidade.

A ingestão total e a qualidade da erva pastejada estiveram provavelmente interligadas de formas que o estudo não conseguiu separar por completo.

Houve um pormenor relevante no grupo da fibra. As vacas com pellets ricos em fibra emitiram menos metano por kg de alimento do que as vacas apenas a pastar, apesar de os restantes indicadores não se destacarem.

Trata-se de uma vantagem pequena. As vacas suplementadas também consumiram os pellets rapidamente, reduzindo o tempo passado a pastar.

O que isto poderá significar

Para vacas em pastoreio no fim da lactação durante o verão, um suplemento com maior peso de amido elevou a produção e reduziu o metano por unidade de leite.

Esta comparação foi feita, pela primeira vez, diretamente contra um alimento rico em fibra utilizado ao ar livre, em pastagens.

Como os produtores já usam pellets no verão para manter a produção, uma formulação mais orientada para o amido poderá reduzir o custo climático de cada unidade de leite.

Ainda assim, existe uma ressalva importante: as emissões de metano por vaca não diminuíram, pelo que o total de uma exploração só baixa se a mesma quantidade de leite puder ser obtida com menos animais.

Os investigadores não conseguiram quantificar com precisão quanta erva cada vaca ingeriu e apenas algumas utilizaram as unidades de medição de gases com a frequência necessária para entrarem na análise.

Mesmo assim, fica aberto o caminho para testar se uma alteração barata no concentrado pode reduzir a pegada escondida num copo de leite.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário