Há noites em que um auditório cheio parece caber dentro de uma conversa. No Coliseu do Porto, perante cerca de três mil pessoas, Salman Rushdie transformou pouco mais de 40 minutos numa espécie de aula prática sobre o sentido da vida e o ofício da escrita - “o mais difícil de todos, mas também o mais recompensador”.
É evidente que nenhuma vida se resume em tão pouco tempo (ainda menos a de alguém que já atravessou tanto). Ainda assim, quem encheu a sala no domingo saiu com a impressão de que a conversa, guiada com mão segura por Alberto Manguel, tocou nos pontos essenciais do percurso do escritor. No fim, ficou sobretudo um testemunho profundamente humano, atravessado por humor, que mostra como nem o ataque de há quatro anos - de um fundamentalista, que lhe retirou a visão do olho direito e parte da mobilidade de uma mão - lhe arrancou o gosto pela vida e pela escrita.
Com 45 minutos de atraso, devido às apertadas medidas de segurança que obrigaram todos os espectadores a uma revista prévia, a sessão mais concorrida do Babell abriu com os acordes de “Somewhere over the rainbow”. A canção intemporal de “O Feiticeiro de Oz” levou Rushdie, quando tinha apenas dez anos, a escrever a sua primeira história: a de uma criança que tenta encontrar o início do arco-íris.
Ao ver o filme de Victor Fleming, o autor de “Os filhos da meia-noite” diz ter apreendido uma lição que continua a seguir sem hesitar: “A ficção é muito mais honesta do que a realidade”.
A Bombaim dos anos 50 e 60 onde cresceu - capital da indústria cinematográfica indiana - contribuiu para moldar a sua visão do mundo, enriquecida por relatos orientais que influenciaram decisivamente o seu imaginário. Recordou que os contos de “As mil e uma noites” “têm tanto sexo e violência que mais parecem um filme do Tarantino”. “Só não têm tapetes voadores, como Hollywood nos mostrou”, atirou, em tom de brincadeira.
Interrogado por Alberto Manguel sobre a tendência das suas personagens para cruzarem fronteiras, num trânsito quase permanente, o escritor reconheceu ter “um gosto especial em ultrapassar a linha”. A partir daí, o diálogo concentrou-se no ofício da escrita, com Salman Rushdie a admitir que é a atividade “mais difícil de todas, mas também a mais recompensadora”.
Boa parte dessa dificuldade, defende, vem do facto de cada livro novo ser uma experiência diferente: “O grande drama da ficção é que pouco aprendemos com a experiência”.
Falou-se também de bloqueios criativos, e o autor de origem indiana sustentou que, quando isso acontece, muitas vezes “o problema está umas páginas mais atrás”. Seja como for, “assim que o livro sai das mãos do autor, o livro deixa de pertencer-lhe”.
Entre vários elogios a autores como Shakespeare (“era impossível que não soubesse que ninguém era melhor do que ele”, disse) e Jane Austen (por ter conseguido escrever tratados de humanidade sem abordar diretamente a política), mostrou-se convicto de que “o escritor não é dono da sua imaginação”, porque “cada qual está limitado ao cérebro que tem, o qual vai sempre numa determinada direção”.
Quando questionado sobre a relação entre política e ficção, Salman Rushdie lembrou que “a distância entre a vida privada e a vida pública quase desapareceu”, o que obriga o ficcionista a ter em conta essas mudanças na construção das personagens. Ainda assim, garantiu não ter interesse em enveredar pela ficção política, mas apenas em “escrever ficção que leve em consideração tudo o que torna um ser humano aquilo que ele é”.
A "estupidez" do atacante
O esfaqueamento de 12 de agosto de 2022, no estado de Nova Iorque, não ficou fora da conversa. Salman Rushdie recordou as dúvidas que o acompanharam quando decidiu pôr por escrito toda a experiência, reunida no livro de memórias “A faca”. A passagem em que o próprio escritor confronta o atacante - numa inesperada inversão de papéis - foi, confessou, o ponto decisivo de todo o processo: permitiu-lhe uma vingança literária sem que o agressor parecesse “simplesmente estúpido, talvez só um pouco estúpido”, ironizou. “Quis colocar-me na pele dele e usar o talento que tenho para tentar perceber porque é que um miúdo de 24 anos, que nunca leu nada do que escrevi, sem antecedentes criminais, está disposto a ir do zero ao homicídio, para matar alguém que não conhece, para matar alguém que é um total desconhecido. Pensei que isso era intrigante, quase como as tragédias de Shakespeare têm enigmas que são muito difíceis de resolver”, considerou.
A morte voltou ao tema quando o moderador perguntou ao romancista se era algo de que tinha medo. “Tenho preferido não me meter nisso. Já olhei para a morte de perto e não é fantástico. Conhece a personagem de Herman Melville, Bartleby, do famoso conto? Sempre que lhe pedem para fazer alguma coisa. diz: ‘Preferia não o fazer’. Essa é a minha visão da morte. Preferia não o fazer”.
Longas filas de espera
Seguindo as recomendações da organização, a maioria dos detentores de bilhete chegou ao Coliseu com grande antecedência (uma pontualidade que, curiosamente, muitos dos convidados não tiveram). Duas horas antes da hora prevista, as longas filas já atravessavam a Rua Passos Manuel, fechada ao trânsito e sob forte aparato policial. Ainda assim, os horários voltaram a derrapar, dada a lentidão do procedimento. Todos os presentes tiveram de passar por um detetor de metais e por uma revista posterior, além de não poderem levar objetos volumosos ou considerados suspeitos.
Em alguns casos, os espectadores tiveram de ficar na fila mais de três horas, o que motivou alguns protestos. As galerias, por exemplo, só começaram a ser ocupadas já depois das 22 horas, contribuindo para o atraso no início da sessão.
O que também gerou críticas de muitos dos presentes foi o uso da chamada “acessibilidade linguística em tempo real”, um sistema de tradução com o apoio de Inteligência Artificial (sob supervisão de tradutores, segundo a organização) que se revelou ainda muito frágil. Apesar do aviso prévio de que poderia haver falhas pontuais, estas sucederam-se vezes demais. De paragens súbitas a omissões e trocas de palavras, passando por um ritmo demasiado rápido, o sistema acabou por se tornar muito confuso, causando, em muitos casos, mais prejuízos do que benefícios.
"O Apocalipse já cá está"
Poucas horas antes da participação de Salman Rushdie, foi a vez de o Babell receber László Krasznahorkai.
Afável no trato e bem disposto, o Prémio Nobel da Literatura mostrou preferir guardar para o discurso e para os livros que escreve a sua visão profundamente sombria sobre o futuro da Humanidade. Na Praça Gomes Teixeira, partilhou com mais de mil espectadores as suas inquietações, defendendo que “o Apocalipse já cá está no meio de nós”.
As alterações climáticas e a sobrepopulação do planeta são, para o autor húngaro, as maiores ameaças que a Humanidade enfrenta, agravadas por muitos políticos atuais, “figuras sinistras saídas do esgoto”.
Numa conversa com Pedro Abrunhosa, menos fluida do que seria desejável devido à tradução (o autor só se expressa no seu idioma de origem), houve ainda espaço para Krasznahorkai expor o seu maior receio: “que a História se repita”.
Apesar das profecias pouco abonatórias sobre o futuro, acredita que “a esperança é a única maneira de sair do desespero” e que “a arte pode ajudar a esquecer os problemas e a conceber beleza”.
O autor de “O tango de Satanás” falou ainda do seu peculiar estilo de escrita, marcado pela densidade e pela quase total ausência de sinais de pontuação, confessando que essa forma rara de criação literária foi a solução encontrada para acompanhar o fluxo do pensamento. “Tenho sempre frases na minha cabeça. Escrever é uma forma de me libertar delas”, confessou perto do final da sessão.
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