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Chocos e gestos com os braços: possível comunicação multimodal

Lula marinha perto do fundo do mar a ser filmada por uma câmara subaquática ligada a um monitor.

Os chocos são animais estranhos e com formas igualmente invulgares de comunicação. Agora, estes cefalópodes foram registados a usar os braços de um modo que parece um conjunto de gestos dirigidos uns aos outros - acrescentando à sua “caixa de ferramentas” uma forma de comunicação que pode ter passado despercebida até aqui.

Ainda mais curioso é que estes gestos dos braços poderão ser sinais multimodais: os chocos não os receberiam apenas pela visão, mas também pelo tacto. Isso aponta para um repertório comunicacional que envolve vários sentidos.

O trabalho, conduzido pelos neurocientistas Sophie Cohen-Bodénès, da École Normale Supérieure (ENS), em França, e da Washington University in St Louis, e por Peter Neri, da ENS e do Instituto Italiano de Tecnologia, está disponível no servidor de pré-publicações bioRxiv.

Comunicação dos chocos: inteligência e sinais que vão além da cor

Os chocos estão entre as criaturas mais fascinantes do planeta. Tal como outros cefalópodes, exibem indícios de uma inteligência poderosa por trás daqueles olhos peculiares. Conseguem realizar testes cognitivos concebidos para humanos, demonstram autocontrolo, têm memórias extraordinariamente longas e nítidas - mas também podem desenvolver falsas memórias, tal como nós. Há inclusive sinais de que passam por uma fase de sono REM.

Por isso, não seria de espantar que as suas estratégias de comunicação fossem igualmente complexas. Sabe-se que recorrem à capacidade notável de mudar de cor para “piscar” padrões e luz polarizada uns aos outros, interpretados de formas que nem conseguimos imaginar, com aqueles olhos tão fora do comum. Também comunicam por via química e, apesar de não terem ouvidos, conseguem detectar e reagir a vibrações na água.

Na parte frontal da face, os chocos têm oito braços e dois tentáculos extremamente móveis e hábeis, usados para nadar, caçar, procurar alimento e fazer mimetismo. Cohen-Bodénès e Neri quiseram perceber se estes animais usam os braços de forma deliberada para comunicar - e de que modo.

"Para além das bem conhecidas e extraordinárias alterações de aparência visual que conseguem gerar ao nível do manto, os chocos podem produzir várias configurações corporais que combinam padrões cromáticos, posturais e de locomoção, tanto para camuflagem como para comunicação", escrevem no artigo.

Os “sinais de aceno dos braços” em Sepia officinalis e Sepia bandensis

"Apresentamos um comportamento de comunicação anteriormente não descrito em duas espécies de chocos: Sepia officinalis e Sepia bandensis. Os quatro 'sinais de aceno dos braços' são movimentos estereotipados dos braços, constituídos por sequências longas, expressivas e repetidas de ondulações dos braços, que podem ser combinadas e expressas seguindo padrões específicos."

A investigação foi realizada com chocos das espécies S. officinalis (choco-comum) e S. bandensis (choco-anão). Os ovos foram recolhidos, respectivamente, no Oceano Atlântico e no Indo-Pacífico; depois foram incubados e os animais foram criados em laboratório.

Como os investigadores testaram a resposta a vídeo e a vibrações

Teste visual

Oito adultos de choco-comum e 10 juvenis de choco-anão foram submetidos a um teste visual. A equipa filmou os chocos nos aquários, obtendo vídeos dos animais a fazer, espontaneamente, sinais com os braços.

Foram identificados quatro tipos distintos de sinais: Up, em que os braços eram levantados a direito para cima; side, em que o choco deslocava os braços para um dos lados; roll, com os braços a rodarem totalmente por baixo da cabeça; e crown, em que os braços eram organizados numa configuração simétrica, como uma abertura em duas partes.

Em seguida, esses vídeos foram reproduzidos aos próprios chocos, ora na orientação correcta, ora de cabeça para baixo. Os animais reagiram com maior frequência aos vídeos apresentados na posição correcta e, na maioria dos casos, devolviam o gesto que viam.

Teste mecanossensorial

Para o teste mecanossensorial, foram avaliados oito adultos de choco-comum e oito juvenis de choco-anão. Os investigadores usaram um hidrofone para registar as vibrações na água quando os gestos espontâneos aconteciam. A partir desses registos, criaram vários padrões, incluindo versões baralhadas e versões invertidas no tempo.

Depois, essas vibrações foram geradas nos aquários dos animais em teste, recorrendo a um hidrofone ou a um subwoofer. De forma interessante, os chocos “acenararam” de volta às vibrações. A resposta foi mais consistente quando as vibrações eram replicadas exactamente, enquanto as versões baralhadas e invertidas desencadearam reacções mais raras.

As respostas foram acompanhadas também por alguma variação na cor dos chocos. Tudo isto parece apontar para uma estratégia comunicacional - mas o conteúdo da mensagem continua por decifrar. Poderá tratar-se de um sinal de dominância; no entanto, com frequência são os chocos mais pequenos que o fazem em direcção aos maiores, o que não encaixa bem nessa ideia.

O que estes gestos poderão querer dizer (ainda é um enigma)

A hipótese de corte também não parece ajustar-se, uma vez que os juvenis também fazem estes gestos. A função poderá ser defensiva, ou estar relacionada com a caça. Os investigadores sugerem ainda que os gestos podem ser uma expressão do estado de espírito.

"É claro que a questão de interpretar o potencial significado destes sinais é complexa e dificilmente terá uma resposta simples", escrevem no artigo.

"Com base nas considerações acima, acreditamos que a interpretação mais plausível é que estes sinais transportam uma variedade de possíveis significados/funções, dependendo dos contextos comportamentais associados."

Vamos precisar de uma ciência maior.

A investigação ainda não foi revista por pares e está disponível no bioRxiv.

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