A maior parte das pessoas dirá que a honestidade é o que mantém uma relação romântica de pé. Ainda assim, quase ninguém pode afirmar que nunca escondeu algo, adoçou uma verdade difícil ou contou uma pequena mentira ao/à parceiro/a.
Uma equipa da Universidade de Copenhaga decidiu medir a distância entre aquilo que dizemos valorizar e aquilo que, na prática, fazemos.
Como a desonestidade molda as relações
Com base em entrevistas, inquéritos de grande escala e registos diários feitos por casais, os investigadores reuniram um retrato detalhado de como a desonestidade se manifesta entre parceiros e porque é que, nem sempre, acaba por destruir a relação.
“A minha investigação mostra que a desonestidade conduz muitas vezes a dúvida e desconfiança, que são prejudiciais para uma relação. Mas também, paradoxalmente, que a desonestidade tem o potencial de se tornar uma oportunidade de aprendizagem e crescimento”, afirmou a primeira autora do estudo, Rachele Mazzini.
“O que é realmente importante compreender é que a desonestidade não acontece num vazio. Está inserida na dinâmica de uma relação específica e é, muitas vezes, o resultado de padrões relacionais recorrentes, e não de actos isolados.”
Quatro formas de os parceiros deturparem a verdade
Numa parte do trabalho, 656 adultos norte-americanos foram convidados a descrever um episódio real em que foram desonestos com um/a parceiro/a actual ou anterior.
A partir desses relatos, a equipa organizou a desonestidade em quatro formas fundamentais.
A primeira é o engano activo, ou seja, o comportamento que oculta a verdade sem recorrer a palavras. As pessoas mencionaram manter uma aparência de normalidade, desviar perguntas, apagar mensagens ou até esconder garrafas para disfarçar um hábito de consumo de álcool.
A segunda forma de desonestidade é a mentira dita de forma directa. A terceira é a omissão de informação, quando alguém simplesmente deixa certos assuntos de fora da conversa.
A quarta forma é a infidelidade, entendida pelos participantes de forma ampla. Incluiu traição física, envolvimentos emocionais e contactos realizados em linha.
As mentiras têm pesos diferentes
Os testemunhos deixaram claro que nem todas as mentiras têm o mesmo impacto. As mentiras graves mexem com o que é mais importante, como negar um caso quando o/a parceiro/a pergunta de forma directa.
As “mentiras brancas” situam-se no extremo oposto. Dizer ao/à parceiro/a que o jantar estava óptimo quando não estava é o exemplo clássico, normalmente com a intenção de poupar sentimentos e não de causar dano.
Quando os investigadores analisaram os temas sobre os quais as pessoas mentiam, oito tópicos voltaram a surgir repetidamente.
Os parceiros escondiam sentimentos, partes do passado ou da identidade, problemas de saúde, assuntos sexuais, coisas que tinham feito de errado, dinheiro, onde tinham estado e outras pessoas presentes na sua vida.
O dinheiro apareceu inúmeras vezes. Alguns ocultavam rendimentos reais, despesas ou até contas bancárias secretas da pessoa com quem partilhavam a vida.
O impacto costuma durar mais do que a própria mentira
No conjunto dos relatos, uma ideia destacou-se com força: a desonestidade tende a corroer a confiança e, quando a confiança se quebra, raramente volta ao lugar por si só.
Houve quem descrevesse discussões que se reacenderam ao longo de anos e parceiros que, aos poucos, se foram afastando. Alguns ainda sentiam a dor de uma mentira contada há muito tempo.
Vários padrões repetiram-se em histórias muito diferentes. Um deles foi designado pelos investigadores como “o ciclo vicioso”.
Neste cenário, a pessoa mente para “pagar na mesma moeda”, continua a mentir para encobrir a primeira mentira e começa a suspeitar que o/a parceiro/a está a fazer o mesmo.
A combustão lenta que transforma emoção em culpa
“Outro padrão é o que chamamos ‘a combustão lenta’, em que os participantes dizem que ser desonestos com o/a parceiro/a os fez sentir excitados no início mas, com o passar do tempo, desenvolveram sentimentos de vergonha e culpa”, explicou Mazzini.
“Isto influenciou negativamente tanto o seu próprio bem-estar como o do/a parceiro/a.”
Acrescentou ainda que, embora estes padrões ainda não tenham sido testados em contextos profissionais, reconhecê-los poderá ser útil para terapeutas que acompanham casais com problemas na relação.
Porque é que as pessoas dizem que mentem
Ao rastrear as razões por trás das mentiras, quase tudo se resumiu a dois motivos.
As pessoas diziam que estavam a proteger-se a si próprias ou a proteger o/a parceiro/a.
“As pessoas assumem muitas vezes que a desonestidade é sempre destrutiva. Mas os nossos resultados sugerem que algumas formas da chamada desonestidade pró-social podem funcionar como uma forma de manter a relação, por exemplo evitando conflitos desnecessários ou danos emocionais”, disse Mazzini.
Boas intenções não reduzem o impacto
Mesmo uma mentira contada para poupar o/a parceiro/a pode ter um efeito duro quando vem à tona. E a culpa pesava de forma semelhante em quem a tinha dito.
Ou seja, ter uma intenção “boa” pouco fazia para proteger a relação quando a verdade acabava por aparecer. O custo surgia quer a mentira fosse descoberta, quer permanecesse escondida.
Nem todos os relatos terminaram em destruição. Um pequeno número de casais conseguiu encontrar algo útil no meio dos estragos.
“Em alguns casos, talvez de forma algo surpreendente, os casais acabam por viver a desonestidade como um alerta que os leva a resolver os seus problemas, algo que não teriam feito de outra forma”, afirmou Mazzini.
O que os parceiros detectam no dia a dia
Noutra parte do projecto, 120 casais, em 5 países, registaram diariamente o que acontecia durante uma semana.
A desonestidade revelou-se relativamente rara, surgindo em menos de 20% dos dias.
As pessoas eram razoavelmente boas a perceber o panorama geral, sobretudo porque os dias de honestidade eram a norma.
No entanto, quando uma mentira passava, os parceiros muitas vezes não a detectavam de todo - ou então desconfiavam de uma mentira que nunca existiu.
Porque é que alguns casais estão mais predispostos
“Curiosamente, os casais que já estavam a viver desonestidade quando o estudo começou diferiam de outros casais e relataram menor confiança e maior percepção de engano mesmo antes de terem ocorrido incidentes específicos de desonestidade”, disse Mazzini.
“Isto confirma a ideia de que a desonestidade não tem apenas a ver com acontecimentos isolados e não acontece num vazio. Frequentemente, reflecte dinâmicas relacionais mais profundas que distinguem alguns casais de outros.”
A principal mensagem não é que a desonestidade seja inofensiva. Na maioria das vezes, prejudica a confiança. Mas também pode revelar padrões mais profundos na relação, dando a alguns casais a oportunidade de enfrentar problemas que vinham a evitar.
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