Saltar para o conteúdo

Estudo da Universidade de Zurique (UZH): jovens descrevem o evento de vida mais importante como positivo

Grupo de quatro estudantes sorridentes com mochilas olha para um telemóvel e caderno ao ar livre.

Pergunte a um adolescente qual foi a coisa mais importante que alguma vez lhe aconteceu. É provável que imagine que venha daí um relato de perda ou de um período particularmente difícil.

Grande parte da investigação anterior partia desse mesmo pressuposto. Muitos estudos sobre acontecimentos de vida começam com uma lista de situações negativas - como doença, acidentes ou problemas familiares.

Uma nova investigação da Universidade de Zurique (UZH) seguiu outro caminho. Em vez de apresentar opções pré-definidas, a equipa pediu aos jovens que indicassem, nas suas próprias palavras, qual tinha sido o acontecimento mais importante das suas vidas.

E o padrão das respostas ficou bem longe do guião habitual.

Os acontecimentos mais importantes são positivos

Os investigadores acompanharam 1,442 jovens em Zurique. Todos responderam à mesma pergunta aos 15, 17, 20 e 24 anos.

No total, escreveram mais de 5,000 respostas. Em oito em cada dez casos, os acontecimentos referidos foram positivos, e não negativos.

E, na maioria das vezes, não se tratava de episódios enormes ou dramáticos. Eram etapas comuns que muitas pessoas atravessam ao crescer.

“Os nossos resultados mostram que a juventude não é composta sobretudo por crises. Muitos jovens mencionam principalmente passos positivos do desenvolvimento, como educação, relações e conquistas pessoais”, afirmou David Bürgin, psicólogo clínico do desenvolvimento e primeiro autor do estudo.

Escola e relações no topo da lista

Houve um tema que se destacou acima de todos os outros. Escola, formação e aprendizagens representaram quase metade das respostas, cerca de 45 por cento.

A seguir surgiram as amizades e os primeiros relacionamentos, com cerca de 12%. O crescimento pessoal e a saúde mental rondaram os 8%, e as viagens ficaram por volta de 7 por cento.

A lista parece um roteiro de entrada na vida adulta. Inclui exames, primeiros empregos, novas amizades, sair de casa e viagens ao estrangeiro.

Vários destes momentos quase nunca aparecem em questionários padronizados. Uma primeira grande amizade ou uma primeira viagem marcante passa facilmente despercebida quando se pergunta apenas por experiências difíceis.

O sofrimento muda aquilo que se destaca

O lado positivo dos resultados não apaga as partes difíceis. A saúde mental continuou a influenciar aquilo que os jovens escolhiam relatar.

Quem apresentava mais ansiedade e depressão referiu com maior frequência acontecimentos duros. Falaram mais de conflitos, perdas e contratempos pessoais.

E, quanto a eventos agradáveis, verificou-se o inverso. Estes mesmos jovens tinham menos probabilidade de escolher viagens, sucesso escolar ou desporto.

A relação parece funcionar nos dois sentidos. Um período difícil pode fazer com que a atenção se fixe mais na dor, e a dor pode contribuir para maior sofrimento mais tarde.

As prioridades mudam com a idade

Acompanhar as mesmas pessoas ao longo de nove anos trouxe um detalhe esclarecedor: aquilo que é considerado importante vai mudando à medida que se cresce.

Em meados da adolescência, a escola, os amigos e o tempo livre ocupavam o primeiro plano. Já no início dos 20 anos, passaram para a frente o trabalho, os estudos, as relações e a independência.

Com o avançar da idade, o desporto e as saídas perderam peso. Em contrapartida, ganharam importância o emprego, a habitação e a constituição de família.

Isto está em linha com o que os especialistas esperam quando as pessoas assumem papéis mais adultos. E ajuda a perceber por que razão um jovem de 15 anos responde de forma tão diferente de alguém com 24.

Os temas mantêm-se entre grupos

A equipa analisou ainda se o contexto de origem alterava as respostas. Consideraram género, posição social e histórico de migração da família.

Algumas diferenças surgiram. As mulheres referiram mais vezes viagens, família e sair de casa, enquanto os homens apontaram com maior frequência o desporto e tirar a carta de condução.

Ainda assim, as discrepâncias foram pequenas. Os três tópicos mais comuns, que somavam cerca de dois terços de todas as respostas, quase não variaram entre grupos.

No essencial, aquilo que os jovens valorizam mostrou-se muito semelhante para todos. Escola, amigos e mudança pessoal apareceram de forma transversal, independentemente do contexto.

“Os serviços de apoio não devem, por isso, focar-se apenas em como lidar com o stress. Relações estáveis, experiências positivas e oportunidades para viver a autoeficácia são igualmente importantes”, afirmou Lilly Shanahan, co-líder do estudo.

As ferramentas linguísticas tornaram isto possível

Ler manualmente milhares de respostas seria demasiado demorado. Por isso, a equipa recorreu a ferramentas informáticas de análise de linguagem para as organizar por temas.

O método agregou as respostas em 12 tópicos, que depois foram reunidos em cinco áreas mais abrangentes da vida.

Um modelo treinado tratou dos casos mais ambíguos. Também avaliou se cada acontecimento soava positivo, negativo ou misto.

Este tipo de abordagem permite manter as histórias reais, mesmo em grande escala. Em vez de forçar vidas complexas a caber em categorias rígidas, preserva a nuance.

“As nossas análises mostram como respostas formuladas livremente em grandes estudos longitudinais podem ser processadas de forma a fornecer um retrato estruturado das experiências dos jovens”, disse Christina Haag, primeira autora e actualmente na Universidade de Cambridge.

“Isto permite que as suas perspectivas permaneçam visíveis nas suas próprias palavras.”

Os acontecimentos positivos moldam a juventude

Este é um dos primeiros estudos grandes e de longa duração a analisar desta forma respostas abertas de jovens. Apresenta tanto um novo método como um resultado diferente do esperado.

A mensagem é, ao mesmo tempo, encorajadora e prática: apoiar os jovens em períodos de stress é importante, mas também o é criar espaço para boas experiências.

Viagens, desporto, amizades próximas e pequenas vitórias não são apenas pano de fundo. Para muitos jovens, são precisamente estes os momentos que ficam na memória.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário