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Cascalho de rocha e areia: como melhorar o habitat das abelhas que nidificam no solo, como a Lasioglossum dotatum

Mãos a cuidar de um ninhal de abelhas no solo com flores e uma placa ilustrativa ao fundo.

Das mais de 20.000 espécies de abelhas existentes no mundo, cerca de 70% fazem o ninho no solo. E, tal como muitas das espécies que nidificam acima do chão, estas abelhas estão a sofrer quebras rápidas nas suas populações.

Apesar de já existirem estudos sobre como disponibilizar habitat para abelhas que nidificam em cavidades acima do solo, a ecologia de nidificação das abelhas que nidificam no solo continua, em grande medida, pouco investigada.

Esta falta de conhecimento é preocupante por duas razões. Por um lado, estas abelhas desempenham um papel determinante nos ecossistemas. Por outro, os habitats de nidificação no solo estão sob pressão devido à degradação dos terrenos, à urbanização, ao uso de pesticidas e à expansão agrícola.

O nosso estudo recente procura colmatar esta lacuna. Publicado esta semana na revista Entomologia Austral, analisa as preferências de tipos de solo das abelhas que nidificam no solo e propõe uma forma simples e prática de melhorar os seus habitats.

Uma grande diversidade de abelhas nativas

A Austrália alberga uma diversidade notável de abelhas nativas que não existe em mais nenhum local do mundo - mais de 1.600 espécies descritas cientificamente.

Lasioglossum (Homalictus) dotatum é uma espécie pequena de abelha nativa da Austrália que nidifica no solo. Mede aproximadamente 3–4 mm.

Ao contrário da abelha‑do‑mel europeia introduzida (Apis mellifera), que vive em colónias grandes e muito organizadas, com estruturas sociais complexas, L. dotatum apresenta uma organização social do tipo "vida em apartamento", com ninhos independentes muito próximos uns dos outros. Este comportamento de agregação aponta para a existência de determinadas características ambientais ou do habitat de que a espécie necessita para prosperar.

A espécie encontra-se distribuída de forma ampla pela Austrália continental. Nidifica em vários tipos de solos arenosos. Por essa razão, constitui uma boa oportunidade para perceber de que modo diferentes condições ambientais influenciam as suas preferências de nidificação.

Um polinizador prolífico

Uma característica marcante dos ninhos desta espécie é a presença de pequenos montes cónicos de solo escavado, conhecidos como tumuli, que rodeiam a entrada. Estes montes podem parecer pequenos formigueiros. Por isso, os ninhos são por vezes confundidos com ninhos de formigas, o que pode levar à aplicação acidental de pesticidas e à destruição do habitat das abelhas.

Sabe-se também que esta abelha visita várias plantas com importância ecológica, o que torna essencial compreender o seu papel nos ecossistemas. Existem registos de visitas às flores de jarrah, marri e yarri - árvores decisivas para manter a biodiversidade e apoiar a fauna no sudoeste da Austrália.

Lasioglossum dotatum foi igualmente observada em pomares de abacate, uma cultura com elevado valor económico na Austrália Ocidental.

Embora ainda não seja claro se L. dotatum é um polinizador agrícola de grande relevância, a sua presença nesses pomares indica que poderá desempenhar um papel complementar na polinização. Isto torna-a um tema interessante para estudos que procurem alternativas nativas à abelha‑do‑mel (Apis mellifera) na polinização de culturas.

Compreender as preferências de nidificação das abelhas

A nossa investigação centrou-se em clarificar as preferências de nidificação de L. dotatum. O trabalho procurou avaliar de que forma características ambientais - como o tipo de solo e a cobertura superficial - influenciavam os locais onde estas abelhas escolhiam fazer ninho.

Em concreto, testou-se se L. dotatum preferia areia exposta (sem cobertura) ou gravilha de rocha como substrato de nidificação.

O estudo avaliou ainda se a limpeza da areia - tratada a vapor ou deixada sem tratamento - alterava as decisões de nidificação das abelhas.

Para simular as condições de nidificação junto de agregações activas, usaram-se vasos de nidificação artificiais preenchidos com areia da Planície Costeira do Cisne, uma região conhecida pelos seus solos arenosos. Durante a época de nidificação no verão, em fevereiro de 2022, os investigadores acompanharam a forma como as abelhas interagiam com estes locais artificiais, usando o número de entradas de ninhos (ou tumuli) como indicador de actividade de nidificação.

Entrar na gravilha

O nosso estudo mostrou que L. dotatum tinha uma preferência marcada por nidificar em vasos cobertos com gravilha de rocha, em comparação com vasos com areia exposta. Esta escolha provavelmente resulta das vantagens associadas à gravilha, incluindo melhor retenção de humidade, regulação térmica e maior protecção contra predadores.

Nos vasos experimentais com gravilha de rocha observaram-se significativamente mais entradas de ninhos. Isto sugere que a cobertura rochosa contribui para criar um micro-habitat mais estável e mais favorável à nidificação.

As abelhas também evidenciaram preferência por areia tratada a vapor, o que indica que factores como contaminantes microbianos ou resíduos orgânicos em solo não tratado poderão desencorajar a nidificação.

De forma curiosa, quando a gravilha de rocha foi removida, muitos ninhos estavam escondidos por baixo dessa cobertura. Este resultado sublinha a importância da cobertura rochosa para reforçar a estabilidade do ninho e diminuir o risco de perturbação.

Uma abordagem simples e prática para a conservação

Estes resultados têm implicações importantes para a conservação de abelhas nativas, sobretudo em contextos urbanos e agrícolas.

A preferência pela gravilha de rocha indica que a incorporação deste material em espaços urbanos pode melhorar as condições de nidificação para abelhas que nidificam no solo, como L. dotatum.

Ao criar espaços para estas abelhas que fazem ninho no solo, conseguimos apoiar melhor estes polinizadores essenciais.

Num contexto em que as abelhas nativas continuam a perder habitat e a enfrentar a sua degradação, estas conclusões oferecem uma solução simples e prática para melhorar os seus ambientes de nidificação, contribuindo, em última análise, para populações de polinizadores mais sustentáveis, tanto em zonas urbanas como em áreas rurais.

Freya Marie Jackson, doutoranda, Escola de Ciências Veterinárias e da Vida, Universidade de Murdoch; Giles Hardy, professor de Patologia Florestal, Universidade de Murdoch; Kit Prendergast, investigadora pós‑doutorada, Ecologia da Polinização, Universidade do Sul de Queensland; e Wei Xu, professora associada de Entomologia, Universidade de Murdoch

Este artigo é republicado de A Conversa ao abrigo de uma licença Comuns Criativos. Leia o artigo original.


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