A fase espanhola da crise desencadeada pelo aparecimento de um surto de hantavírus a bordo do navio neerlandês “MV Hondius” ficou encerrada. Depois de uma operação logística especialmente complexa, entre domingo e segunda-feira, foi desembarcada a maioria dos passageiros e elementos da tripulação - 152 pessoas -, que acabaram repatriadas. Em simultâneo, a embarcação foi reabastecida por um navio-cisterna no porto de Granadilla de Abona (Tenerife, ilhas Canárias).
No final da tarde desta segunda-feira, o “MV Hondius” levantou ferros e seguiu viagem com destino ao porto de Roterdão, nos Países Baixos.
Já em Roterdão, o navio de cruzeiros será alvo de um processo rigoroso de desinfeção. Entretanto, uma alteração súbita das condições meteorológicas - com potencial para mexer nos planos previstos - levou o “MV Hondius” a sair da posição de fundeado nas águas do porto e a atracar nos molhes, como medida de proteção.
Ainda esta segunda-feira, descolaram para os Países Baixos os dois últimos aviões mobilizados para a evacuação.
A bordo do barco de 107 metros de calado, lançado em 2019, com capacidade para quebrar o gelo antártico e vocacionado para cruzeiros de luxo em destinos exóticos, permanecem 26 membros da tripulação, sob o comando do capitão polaco Jan Dobrogowski. Na última extração seguiram 28 pessoas - neerlandeses, australianos e filipinos -, que partem de Tenerife para os Países Baixos num avião com equipamento médico, fretado pelas autoridades do país de destino. O avião australiano que era aguardado em Tenerife para repatriar 17 cidadãos desse país acabou também por voar para os Países Baixos.
No plano sanitário, a Espanha limita-se agora a acompanhar e vigiar os seus 14 cidadãos envolvidos. Encontram-se sob um regime estrito de isolamento no hospital militar Gómez Ulla, em Madrid, para onde foram transferidos no domingo à tarde, sob fortes precauções. Um deles já testou positivo, mas trata-se de um “positivo provisório”. Os restantes 13 obtiveram testes negativos, resultados que, segundo o Governo espanhol, são igualmente provisórios.
Nada que ver com a covid-19
Com maior ou menor intensidade, os outros passageiros terão de cumprir, nos respetivos países, as medidas de precaução determinadas pelas autoridades de saúde. Entre os que foram retirados do arquipélago canário, uma francesa e um americano desenvolveram sintomas compatíveis com hantavírus. Em Espanha, dois casos suspeitos identificados em Alicante e Barcelona apresentaram testes de PCR negativos. A Organização Mundial de Saúde (OMS), que acompanhou o alerta desde o início, confirma oito contagiados e três falecidos.
Na avaliação de epidemiologistas, este surto de hantavírus não se compara à catástrofe sanitária de 2020-21, durante a pandemia de covid-19, que mato mais de seis milhões de pessoas no mundo. Ao contrário do coronavírus, que passa com grande facilidade de pessoa para pessoa e tem elevada capacidade de contágio, o hantavírus transmite-se com dificuldade entre humanos, exige contactos próximos e prolongados e tem um potencial pandémico muito reduzida.
O agente é endémico na região dos Andes, onde se especula que dois passageiros neerlandeses do “MV Hondius”, entretanto falecidos, o tenham contraído. A transmissão ocorre através de um roedor da espécie Oligoryzomys longicaudatus (rato-de-cauda-longa), comum em zonas patagónicas da Argentina e do Chile. Ao longo desta crise, a memória da covid esteve presente e contribuiu para uma dramatização particular do episódio.
A operação de receção, acolhimento, tratamento e repatriamento dos 152 passageiros do “MV Hondius” testou a capacidade organizativa de Espanha, a quem a OMS apelou, atendendo à reputação do seu sistema de saúde. Figuras públicas e organizações de vários países reconheceram o trabalho desenvolvido pelas autoridades espanholas numa operação de grande complexidade, que envolveu 23 países e captou a atenção de opiniões públicas em todo o planeta.
Os ministérios da Saúde, Administração Interna e Defesa, a Secretaria de Estado da Proteção Civil, a Unidade Militar de Emergências (UME), forças e corpos de segurança do Estado, trabalhadores portuários e aeroportuários de Tenerife e equipas hospitalares atuaram de forma coordenada para, em 36 horas, resolver uma situação potencialmente perigosa.
Elogio pontifical em vésperas de visita
O Papa Leão XIV, que incluiu na sua iminente viagem a Espanha uma visita aos centros de acolhimento de imigrantes nas Canárias, referiu a operação na oração dominical Regina Cæli: “Quero agradecer a hospitalidade que caracteriza o povo das ilhas Canárias por ter permitido a chegada do cruzeiro “MV Hondius” com os doentes do hantavírus. Estou contente por ir ao vosso encontro no próximo mês, durante a minha visita”, afirmou opontífice.
O diretor-geral da OMS, Thedros Adhanom, que permaneceu em Espanha desde o começo da crise, elogiou nas redes sociais o trabalho do Executivo de Pedro Sánchez, classificando-o como “muito bem gerida”. Na terça-feira, dará uma conferência de imprensa conjunta com o primeiro-ministro espanhol.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, valorizou os esforços do Governo espanhol e de todas as instituições envolvidas no desembarque, descrevendo-o como “rápido e eficiente”. O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, manifestou “apoio” às autoridades espanholas na condução da crise sanitária. Por seu lado, a ministra da Saúde espanhola, Mónica García, afirmou sentir “orgulho nacional” pela disponibilidade demonstrada pelos cidadãos para acolherem, “como obrigação moral e jurídica”, os afetados do cruzeiro neerlandês.
Órgãos de comunicação social habitualmente pouco inclinados a elogiar o Executivo, como o jornal “El Mundo”, abriram uma exceção. No editorial desta segunda-feira, o diário madrileno escreveu: “A gestão do desembarque do ‘MV Hondius’, epicentro da crise global do hantavírus, mostrou que Espanha é capaz de articular um aparato sanitário e logístico sensível para repatriar em segurança dezenas de passageiros de várias nacionalidades”.
“Convém começar pelo essencial: a operação, que ainda ontem à noite permanecia em aberto, funcionou. A evacuação escalonada, o transporte dos passageiros espanhóis para o hospital Gómez Ulla para cumprirem a quarentena obrigatória, e a coordenação de voos de repatriamento refletem uma capacidade de resposta notável face a uma crise inédita. Espanha assumiu uma responsabilidade delicadíssima num contexto de alarme internacional e resolveu-a com competência”, prossegue “El Mundo”.
Deixa, porém, um alerta: “Reconhecê-lo não implica ignorar que a descoordenação com o governo das Canárias, que deixou claro em público que não autorizava o desembarque, projetou uma imagem preocupante. O braço-de-ferro político, as declarações cruzadas e a sensação de improviso mancharam uma operação que devia ter transmitido precisamente o contrário: unidade e serenidade institucional”.
Disputa política
Apesar do desfecho operacional, o episódio não escapou à conflitualidade partidária e à polarização que marca a política espanhola. O Partido Popular (PP, centro-direita e principal força da oposição) acusou o Governo de esquerda de desorganização, falta de informação e incapacidade de gestão. Nas últimas horas, contudo, abrandou o tom, reconhecendo que a perceção generalizada é a de que a atuação do Executivo foi adequada.
Já os dirigentes do partido de extrema-direita Vox adotaram uma leitura distinta, acusando o socialista Sánchez - cujo Partido Socialista Operário Espanhol governa em coligação com a frente esquerdista Somar - de ter “trazido” para Espanha a crise do hantavírus. Segundo afirmam, teria sido uma manobra para desviar atenções de episódios de corrupção que envolvem familiares e colaboradores políticos diretos.
O Governo autonómico das Canárias, liderado por Fernando Clavijo, da Coligação Canária (centro-direita regionalista) e apoiado pelo PP, também dificultou a atuação do Executivo central. Para além de ter tentado impedir a entrada do “MV Hondius” no porto de Granadilla e de acusar Sánchez de o ter ignorado quanto ao desembarque, acabou por ser alvo de chacota ao alegar que temia o navio por risco de transportar roedores portadores de hantavírus que saltassem para o mar e nadassem até às instalações portuárias. Mais tarde, soube-se que o argumento, sem sustentação científica, se baseava num parecer produzido por inteligência artificial.
O jornal progressista “El País” criticou o executivo regional num editorial publicado esta segunda-feira com o título “O populismo prejudica a saúde”. “Devido à posição do ‘MV Hondius’ em águas da África Ocidental e à disponibilidade de um sistema sanitário avançado em Espanha, a OMS decidiu que o barco se dirigisse para as Canárias para retirar e vigiar os passageiros, e depois redirigi-os para os seus países de origem para as necessárias quarentenas. O presidente Clavijo fez tudo o que pôde para o evitar, aduzindo uma série de desculpas peregrinas, irracionais e populistas sobre uma suposta proteção da população da ilha”, escreve o diário madrileno.
“Este comportamento atingiu níveis inéditos na madrugada de domingo, a escassas quatro horas da chegada do barco, quando o presidente canário se negou a autorizar que fundeasse junto de um porto de Tenerife, com o argumento de que os ratos infetados podiam saltar do barco e nadar até à costa, propagando o vírus por toda a cidade”, prossegue o editorialista. “O presidente canário, cuja única preocupação a respeito do barco é afastá-lo o mais possível, comete um egoísmo provinciano que roça a desumanidade.”
Atualizado às 21h32
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