O secretário-geral das Nações Unidas exigiu hoje aos principais responsáveis do setor da inteligência artificial (IA) que divulguem o custo ambiental real associado aos centros de dados, defendendo ainda um reforço do investimento em energias renováveis num contexto marcado pelas crises energética e climática.
No discurso proferido durante a Semana de Ação Climática, em Londres, António Guterres foi taxativo: "Chega de custos escondidos. Chega de impor o fardo àqueles que menos o podem suportar. É tempo de dizer toda a verdade. Se a IA quer contribuir para a construção de um futuro melhor, precisa de ser honesta sobre o que nos custa hoje".
IA e centros de dados: António Guterres quer transparência sobre a pegada ambiental
Um estudo das Nações Unidas divulgado este mês conclui que os centros de dados que suportam a IA e outros serviços digitais consomem volumes muito elevados de eletricidade, tendo esse consumo sido estimado em 448 terawatts-hora (TWh) em 2025. Se fossem comparados a um país, esse nível colocá-los-ia no 11º lugar mundial, imediatamente atrás da França (468 TWh).
Ainda assim, o consumo efetivo de energia destes centros de dados permanece por apurar com rigor. Perante esse cenário, o líder da ONU anunciou a criação da Iniciativa de Transparência Ambiental da IA, destinada a obrigar os grandes grupos globais do setor a medir e a publicar a respetiva pegada ambiental - incluindo, por exemplo, indicadores relativos a carbono, água e uso de terra - associada às suas operações.
Guterres sustentou também que as empresas devem assumir o compromisso de garantir que os centros de dados passam a ser abastecidos com energia renovável até ao final da década. "As comunidades desconhecem muitas vezes o impacto ambiental da infraestrutura que está a ser desenvolvida à sua volta", afirmou, admitindo simultaneamente que a IA poderá contribuir para "acelerar as soluções climáticas".
Metano: apelo global e metas para petróleo, gás, agricultura e aterros
Para lá do setor tecnológico, o secretário-geral da ONU apresentou igualmente um "apelo global à ação sobre o metano", identificado como o segundo maior fator de contribuição para as alterações climáticas a seguir ao CO2, com a ambição de atingir "emissões próximas de zero em toda a cadeia de valor".
Nesse âmbito, Guterres avançou com um conjunto de objetivos focados nas fugas de metano na indústria do petróleo e gás e nas práticas de queima do gás natural libertado durante a extração de petróleo. Pediu ainda uma redução das emissões no setor agrícola e nos aterros sanitários.
Segundo um relatório publicado em maio pela Agência Internacional de Energia, a deteção e reparação de fugas, ou a limitação da queima de rotina, permitiria evitar 30% das emissões associadas aos combustíveis fósseis "sem custos", uma vez que o gás recuperado poderia ser comercializado.
"Só em 2025, foram queimados cerca de 167 mil milhões de metros cúbicos de gás, o equivalente ao consumo anual de África", destacou.
Crise climática e energética, 1,5°C e o ritmo da transição para renováveis
Ao enquadrar a situação global, Guterres sublinhou que o planeta atravessa uma crise climática e uma crise energética, agravadas pela guerra em curso no Médio Oriente, argumentando que ambas "partilham a mesma origem destrutiva: os combustíveis fósseis".
"Não podemos continuar a confiar num sistema baseado em combustíveis fósseis", alertou, apontando os recordes de calor observados na Europa como sinal inequívoco das alterações climáticas causadas sobretudo pela queima de carvão, petróleo e gás.
"Temos de agir com muito mais urgência para limitar rigorosamente a extensão e a duração de qualquer ultrapassagem [da subida da temperatura relativamente aos níveis pré-industriais] de 1,5°C", acrescentou António Guterres, referindo-se ao objetivo de aquecimento definido no Acordo de Paris de 2015 - um patamar que, pela primeira vez, foi ultrapassado em 2025.
Com base em dados do Copernicus, o principal programa de Observação da Terra da União Europeia, a média da temperatura global calculada num ciclo de três anos (2023-2025) evidenciou um aumento superior ao limite estabelecido.
Este ciclo sem precedentes ocorreu num período em que 2024 quebrou o recorde histórico de ano mais quente de sempre, enquanto 2023 e 2025 também estiveram entre os anos com temperaturas mais elevadas alguma vez registadas.
"Todos os grandes emitentes têm de acelerar as suas ações", disse Guterres, acrescentando que "todos os países devem superar os seus compromissos".
Embora tenha assinalado progressos nas energias renováveis, o secretário-geral advertiu que o setor continua a enfrentar obstáculos relevantes.
No ano passado, a produção de eletricidade limpa - impulsionada sobretudo pela energia solar e eólica - cresceu acima do aumento global da procura de eletricidade.
Em 2025, a quota das energias renováveis ultrapassou, pela primeira vez na história moderna, um terço da matriz elétrica mundial, ao mesmo tempo que a fatia da eletricidade produzida a partir de carvão desceu para menos de um terço da geração global.
A China mantém-se como força motriz da transição mundial para energia limpa e, na Europa, a produção de energia de origem fóssil está, em geral, numa trajetória de queda.
Em contrapartida, os EUA, sob a presidência de Donald Trump, voltaram a apostar no carvão, no petróleo e no gás, reduzindo de forma drástica o apoio às energias renováveis e a uma ação climática mais ampla - num cenário de crise energética global intensificada pela guerra dos EUA no Irão, que Guterres classificou como "a mãe de todos os choques energéticos".
Guterres descreveu o momento atual como "Um Conto de Duas Crises", numa metáfora com o romance de Charles Dickens, "Um Conto de Duas Cidades" - também uma alusão a Londres, onde proferiu o discurso.
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