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Estudo sugere que os dentes surgiram como sensores há 500 milhões de anos

Dentista em bata branca examina modelo grande de dente numa mesa com equipamento dental ao fundo.

Já se perguntou porque é que os nossos dentes reagem com tanta dor - ou até apenas ao contacto com bebidas frias? Um estudo divulgado na quarta-feira sugere que a explicação pode estar no facto de os dentes terem surgido, há cerca de 500 milhões de anos, para uma função muito diferente de mastigar.

A origem exacta dos dentes - e a utilidade que tinham no início - tem sido, há décadas, um enigma difícil de resolver para os cientistas.

O que hoje chamamos dentes terá começado com estruturas evolutivas precursoras, duras, conhecidas como odontodes. Em vez de aparecerem primeiro na boca, estas formações terão surgido no revestimento externo, como parte da armadura dos peixes mais antigos, há cerca de 500 milhões de anos.

Ainda actualmente, animais como tubarões, raias e peixes-gato apresentam a pele coberta por dentes microscópicos, o que lhes dá uma textura áspera, semelhante a lixa.

Existem várias explicações propostas para o aparecimento inicial dos odontodes: desde a protecção contra predadores, passando por uma possível ajuda na locomoção na água, até à hipótese de servirem como reserva de minerais.

O que o estudo na Nature propõe sobre os odontodes

O novo trabalho, publicado na revista Nature, sustenta sobretudo a hipótese de que essas estruturas começaram por actuar como órgãos sensoriais, transmitindo estímulos aos nervos.

De início, a autora principal do estudo, Yara Haridy, nem sequer estava a tentar descobrir a origem dos dentes.

A investigadora de pós-doutoramento na Universidade de Chicago estava, na verdade, a explorar outra questão central que continua a intrigar a área da paleontologia: qual é o fóssil mais antigo conhecido de um animal com coluna vertebral?

Para isso, Haridy contactou museus em vários pontos dos Estados Unidos e pediu o envio de centenas de espécimes de vertebrados - alguns tão diminutos que caberiam na ponta de um palito - de forma a poder analisá-los com recurso a um tomógrafo (TAC).

Ao longo dessa análise, passou a concentrar-se na dentina, a camada interna dos dentes que transmite informação sensorial aos nervos localizados na polpa.

A história cheira a peixe

Um fóssil do período Câmbrico, conhecido como Anatolepis, pareceu ser a resposta que procurava. O seu exoesqueleto apresenta poros sob os odontodes, chamados túbulos, que poderiam sugerir que em tempos teriam contido dentina.

Esse indício levou, anteriormente, paleontólogos a defender que Anatolepis seria o primeiro peixe conhecido da história.

No entanto, quando Haridy comparou esse exemplar com outros que tinha digitalizado, verificou que os túbulos se assemelhavam muito mais a órgãos sensoriais designados sensilas, típicos dos artrópodes - o grupo que inclui crustáceos e insectos.

Com isso, o imponente Anatolepis acabou reclassificado: deixou de ser considerado vertebrado e passou ao estatuto de invertebrado.

Entre artrópodes modernos como caranguejos, escorpiões e aranhas, as sensilas são usadas para detectar temperatura, vibrações e até odores.

O facto de estas estruturas terem mudado tão pouco ao longo do tempo sugere que desempenham as mesmas funções há meio milhar de milhões de anos.

Segundo os investigadores, foram encontradas semelhanças “impressionantes” entre estas características observadas em Anatolepis e as de peixes vertebrados de há cerca de 465 milhões de anos - bem como em alguns peixes mais familiares.

“Realizámos experiências em peixes actuais que confirmaram a presença de nervos nos dentes externos de peixes-gato, tubarões e raias”, disse Haridy à AFP.

Isto indica que “os tecidos dentários de odontodes fora da boca podem ser sensíveis - e talvez os primeiros odontodes também o fossem”, acrescentou.

“Artrópodes e vertebrados primitivos evoluíram de forma independente soluções sensoriais semelhantes para o mesmo problema biológico e ecológico.”

O autor sénior do estudo, Neil Shubin, também da Universidade de Chicago, afirmou que estes animais primitivos evoluíram num “ambiente predatório bastante intenso”.

“Ser capaz de sentir as propriedades da água à sua volta teria sido muito importante”, disse Shubin, num comunicado.

Como os odontodes deram origem aos dentes junto da boca

Haridy explicou que, com o passar do tempo, os peixes desenvolveram mandíbulas e “tornou-se vantajoso ter estruturas pontiagudas” próximas da boca.

“Aos poucos, alguns peixes com mandíbulas tinham odontodes pontiagudos na margem da boca e, mais tarde, alguns acabaram por ficar directamente na boca”, afirmou.

“Uma dor de dentes é, na verdade, uma característica sensorial antiga que pode ter ajudado os nossos antepassados ‘com cheiro a peixe’ a sobreviver!”

© Agence France-Presse

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