Quando uma espécie começa a desaparecer dos locais onde antes era comum, essa quebra pode funcionar como um sinal precoce de que algo mais grave se aproxima.
Um novo estudo confirmou essa ligação com mais rigor do que antes, mostrando que as espécies com maior risco de extinção têm, de forma consistente, maior probabilidade de registar uma redução da prevalência local em várias populações.
O resultado sugere que os dados de monitorização da biodiversidade em grande escala - já recolhidos em muitas regiões do mundo - podem servir como um sistema de alerta precoce para espécies que caminham para a extinção.
E isto inclui também espécies que ainda não estão assinaladas como ameaçadas.
Tendências populacionais e riscos de extinção
A investigação foi liderada por Faye Moyes, da University of St Andrews, e por Laura Antão, da University of Turku, na Finlândia.
A equipa analisou mais de 60,000 populações de 2,362 espécies em 978 assemblagens marinhas e terrestres - conjuntos de espécies que coexistem e que foram amostrados de forma abrangente durante, pelo menos, 20 anos.
As tendências populacionais vieram da BioTIME, uma das bases de dados de biodiversidade de longo prazo mais completas alguma vez reunidas, desenvolvida na University of St Andrews.
Na análise, a trajectória temporal de cada população foi comparada com a categoria de risco de extinção da respectiva espécie na Lista Vermelha da IUCN - a referência global para avaliar quão perto uma espécie está de desaparecer por completo.
A questão era simples: as tendências das populações a nível local e as classificações de risco de extinção estavam, ou não, a contar a mesma história?
Em termos gerais, sim. As espécies colocadas em categorias de maior risco na escala da IUCN apresentavam mais frequentemente uma diminuição da prevalência local nas suas populações.
Um sinal consistente começa a destacar-se
O padrão não era perfeito - o quadro observado era, de facto, complexo -, mas manteve-se suficientemente consistente e claro para ter significado.
Um número ajuda a enquadrar a dimensão das alterações: menos de 10 por cento das populações analisadas mostraram uma prevalência claramente crescente ou claramente decrescente ao longo do tempo.
A maioria manteve-se estável, ou oscilou sem uma direcção marcada.
As populações em declínio eram uma minoria - mas, dentro dessa minoria, a associação com um risco de extinção mais elevado era evidente.
“Pela primeira vez, avaliámos se existe um sinal consistente entre as tendências temporais das populações e o estatuto de risco de extinção de uma espécie usando dados de monitorização de assemblagens, em vez de avaliações ‘dedicadas’ ao nível da espécie”, afirmou Antão.
“Encontrar um sinal claro de que a diminuição da prevalência está normalmente associada a um maior risco de extinção é uma forte indicação de que conseguimos detectar impactos mesmo em espécies que, neste momento, não estão classificadas como em risco.”
A complexidade por baixo do padrão
A relação entre as tendências das populações locais e o risco de extinção não corresponde a uma equivalência directa e simples.
Algumas populações de espécies já classificadas como ameaçadas mantiveram-se estáveis ou até aumentaram. E algumas populações de espécies que não estão actualmente assinaladas como ameaçadas mostraram declínio.
Essa complexidade espelha a realidade da biologia da conservação: o risco de extinção é avaliado ao nível da espécie, mas o que acontece no terreno desenrola-se população a população, local a local.
Essas aparentes contradições não são apenas “ruído” nos dados - são informação útil.
Uma espécie ameaçada com populações locais estáveis representa uma prioridade de conservação diferente de uma espécie que está a diminuir em todo o lado.
E uma espécie não ameaçada que perde terreno discretamente em vários locais pode justificar mais atenção do que aquela que a sua classificação actual na IUCN sugere.
De sinais de alerta a acção
A implicação prática sublinhada pelos investigadores tem a ver com detecção. Como os recursos para conservação são limitados, é impossível monitorizar todas as espécies em todos os locais com detalhe suficiente para identificar problemas emergentes.
O que os dados de monitorização de assemblagens em grande escala podem fazer - se este sinal entre declínio local e risco de extinção se mantiver - é sinalizar espécies e populações que merecem investigação adicional, antes de a situação evoluir ao ponto de a espécie subir nas categorias de ameaça da IUCN.
“Estas tendências temporais podem servir como indicadores de alerta precoce e ajudar a orientar tanto novos esforços de monitorização como acções de conservação”, disse a coautora sénior Anne Magurran, da University of St Andrews.
“Por exemplo, populações estáveis de espécies em risco são de grande interesse para a conservação, enquanto tendências de declínio podem destacar espécies que estão em falta nas avaliações de risco de extinção.”
Este último ponto é particularmente relevante. A Lista Vermelha da IUCN é o sistema global mais autoritativo para acompanhar o risco de extinção, mas depende de avaliações dedicadas ao nível da espécie que são dispendiosas, demoradas e, inevitavelmente, incompletas.
Os dados de monitorização de assemblagens - recolhidos de forma sistemática para muitas espécies ao mesmo tempo - podem ajudar a identificar lacunas, apontando para espécies que podem ser mais vulneráveis do que a sua classificação actual reflecte.
Transformar dados em alertas precoces
O estudo liga duas grandes bases de dados de biodiversidade que, até agora, têm apenas uma sobreposição limitada: a BioTIME, que acompanha a forma como as assemblagens mudam ao longo do tempo, e a Lista Vermelha da IUCN, que avalia a ameaça ao nível da espécie.
Ao juntá-las desta forma, aumenta-se o que cada uma consegue revelar por si só.
“Como a tarefa de avaliar a mudança na biodiversidade é gigantesca, e não podemos viajar no tempo para recolher mais dados no passado, queremos usar toda a informação disponível”, afirmou a coautora do estudo Maria Dornelas, da University of St Andrews.
“Estas duas grandes bases de dados de biodiversidade têm apenas uma sobreposição limitada e este estudo mostra-nos como podemos tirar partido de ambas para expandir a nossa compreensão da mudança na biodiversidade.”
“Os nossos resultados sublinham a importância da monitorização ao nível das assemblagens nas estratégias de conservação e mostram o valor de séries temporais de longo prazo como as existentes na BioTIME”, acrescentou Moyes.
As espécies que estão a diminuir localmente, de forma discreta, em locais que a maioria das pessoas nunca visitará, estão registadas nos dados.
A questão é saber se os sistemas de monitorização - e a vontade de agir sobre o que eles revelam - conseguem acompanhar o ritmo a que estes declínios estão a ocorrer.
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