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Estudo revela que os alces do Colorado nunca foram recém-chegados

Mulher observa veados e arte rupestre numa pedra, com montanhas e árvores ao fundo ao pôr do sol.

Durante muito tempo, os alces do Colorado foram vistos como recém-chegados. A narrativa mais repetida começa no final da década de 1970, quando as autoridades responsáveis pela vida selvagem transferiram alces para o estado e a população acabou por crescer.

Essa versão dos acontecimentos continua a influenciar a forma como a espécie é gerida hoje. No entanto, um novo artigo, assinado por uma equipa interdisciplinar, defende que a realidade é bastante mais antiga e complexa.

Os alces nunca foram verdadeiros forasteiros

Para chegar a esta conclusão, a equipa analisou jornais, relatórios antigos de locais, registos de museus, arquivos fotográficos e histórias indígenas. Em conjunto, as fontes apontavam todas na mesma direcção: havia alces na região muito antes de qualquer libertação moderna.

Os investigadores cruzaram conhecimento indígena com história, arqueologia e paleontologia.

Jonathan Dombrosky, co-autor do estudo e investigador do Centro Arqueológico de Crow Canyon, afirmou que o trabalho evidencia o valor de várias linhas de evidência independentes convergirem numa mesma conclusão: os alces já integravam os ecossistemas do sul das Montanhas Rochosas muito antes das reintroduções contemporâneas.

“De forma mais ampla, o estudo demonstra como as ciências históricas nos podem ajudar a compreender melhor as origens dos ecossistemas modernos e a tomar decisões mais informadas sobre o seu futuro”, acrescentou Dombrosky.

Registos antigos não paravam de surgir

William Taylor, autor principal do estudo, deu início a esta investigação depois de ter entrado para a Universidade do Colorado em Boulder (CU Boulder) em 2019.

À medida que se familiarizava com as colecções do museu, Taylor deparava-se repetidamente com indícios que não encaixavam no rótulo de “não nativo”.

Um conjunto de ossos, em particular, ficou-lhe na memória. Pertencia à colecção Jurgens, associada a um capítulo muito antigo da história do estado.

“Uma das mais antigas e significativas é a colecção Jurgens, que vem de um sítio no Colorado e está relacionada com um capítulo muito precoce e profundo da pré-história do Colorado, e essa colecção foi analisada por (um dos) meus antecessor(es), o Dr. Joe Ben Wheat”, disse Taylor.

Essa análise, realizada há décadas, identificou vários espécimes de alce no noroeste do Colorado com milhares de anos, remontando ao início do Holocénico.

Além disso, também o incomodava a forma como os alces eram retratados nas notícias.

Perguntas puseram em causa suposições

“Também comecei a ver algumas narrativas mediáticas, com base em relatos em segunda mão, a sugerirem que os povos nativos nas Montanhas Rochosas não conheciam os alces”, afirmou Taylor.

“Coisas desse género começaram simplesmente a incomodar-me e a despertar o meu alarme – decidi que era necessário um envolvimento sério com o registo arqueológico.”

“Precisávamos de olhar com mais atenção para estas ideias que vão infiltrando o discurso – sobretudo caracterizações das perspectivas indígenas e do registo histórico, porque isso vai moldar o que acontecerá aos alces no futuro.”

A partir daí, a equipa pesquisou cerca de 160 anos de jornais do Colorado digitalizados e localizou relatórios arqueológicos dispersos por toda a região.

As histórias indígenas recuam muito mais no tempo

O fio mais forte do estudo foi o conhecimento indígena. Para a Tribo Arapaho do Norte, o alce atravessa a língua, a arte, a caça e a cerimónia.

“O alce é considerado um bem valioso entre a Tribo”, declarou Crystal C’Bearing, co-autora do estudo e responsável pela preservação histórica tribal dos Arapaho do Norte.

Segundo ela, sociedades dentro dos Arapaho do Norte “utilizam muitos animais, incluindo alces, no vestuário, em itens societários e em trajes cerimoniais. Esta tradição continua hoje”.

A palavra arapaho para alce, hinenihii, significa “homem grande” e reflecte o porte do animal. Um termo mais antigo, see’iini3eet, remete para o focinho largo e achatado.

Em tempos, a pele de alce era usada para fabricar tambores da Sociedade do Tambor da Águia, e o animal surge em canções arapaho pelo menos desde 1890.

A memória estende-se igualmente mais a sul: relatos dos Apache Jicarilla, no norte do Novo México, recordam alces que mais tarde desapareceram.

Fêmeas e crias indicam reprodução

O registo escrito acompanhava estes testemunhos. Em jornais do Colorado, a equipa contabilizou mais de 30 relatos publicados de avistamentos de alces entre 1860 e 1970, muitos envolvendo vários animais ao mesmo tempo.

Não se tratava de indivíduos perdidos de passagem. As fêmeas surgiam quase tão frequentemente como os machos, e repetiam-se descrições de mães acompanhadas por crias.

Há uma fotografia particularmente esclarecedora: tirada perto de Fairplay por volta de 1912, mostra uma fêmea e a sua cria abatidas para um acampamento madeireiro associado ao caminho-de-ferro - muito provavelmente animais que já se reproduziam localmente.

Como um nativo passou a estrangeiro

Ao longo de cerca de um século, a percepção sobre o alce inverteu-se. Na década de 1940, alguns biólogos do Colorado consideravam-no uma espécie nativa que tinha sido em grande parte eliminada.

Já na década de 1970, os técnicos de vida selvagem descreviam as libertações como uma reintrodução, o que pressupunha uma população anterior. Mais tarde, gestores de parques passaram a classificar esses mesmos animais como introduzidos recentemente.

Os autores identificam aqui um caso de síndrome da linha de base móvel: à medida que a memória se esbate, um nativo que regressa começa a parecer um invasor.

Porque o rótulo condiciona a gestão

As implicações são concretas. No Parque Nacional das Montanhas Rochosas, alces e veados-canadianos têm reduzido significativamente os salgueirais por ramoneio, prejudicando o habitat dos castores, e os gestores têm ponderado vedações, predadores e abates.

“O Parque Nacional das Montanhas Rochosas está a lidar com impactos ecológicos causados por alces, mas tratar os alces como uma espécie não nativa altera quais as respostas de gestão que parecem justificáveis”, afirmou John Wendt, co-autor do estudo e investigador da Universidade Estatal do Novo México.

“Quando os sistemas modernos de parques funcionam sem estes processos reguladores, impactos elevados não significam necessariamente que um animal esteja ecologicamente deslocado”, disse Wendt.

Acrescentou ainda que esses impactos “podem ser um sinal de que os nossos próprios quadros de gestão devem ser reconsiderados”.

“Os povos tribais faziam parte do ecossistema natural no que toca à caça e à gestão da vida selvagem. Seria benéfico, não só para as Tribos, voltar a utilizar o alce em práticas culturais, como também ajudar na co-gestão dos alces no Colorado e no sul das Montanhas Rochosas”, afirmou C’Bearing.

Uma visão mais profunda para o futuro

A lição principal vai além de uma única espécie. Os levantamentos de fauna selvagem cobrem, muitas vezes, apenas algumas décadas - mesmo quando um animal pertence a um lugar há milhares de anos.

“O véu do tempo é muitas vezes o nosso maior obstáculo para compreender a vida selvagem”, disse Joshua Miller, co-autor do estudo e investigador da Universidade de Cincinnati.

“Comparando com os milhares de anos que uma espécie pode viver num determinado local, os dados de levantamentos de fauna podem recuar apenas algumas décadas no tempo. Podemos aprender muito com esses dados, mas algumas perguntas exigem horizontes temporais mais amplos”, afirmou Miller.

“Entrelaçar diferentes fios de evidência histórica pode preencher lacunas importantes de conhecimento e ajudar-nos a desenvolver estratégias para gerir e conservar plantas e animais de todo o mundo.”

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