Em visita à Polónia a 20 de abril, Emmanuel Macron volta a encontrar-se com o primeiro-ministro polaco, Donald Tusk. Na agenda, entre outros temas, estão conversas sobre a dissuasão nuclear francesa - um encontro que pode voltar a baralhar as cartas da defesa europeia.
Esperado em Gdansk, no norte da Polónia, o Presidente participa numa cimeira com Donald Tusk. O momento escolhido não é irrelevante: a reunião acontece pouco antes do aniversário do Tratado de Nancy, assinado a 9 de maio de 2025, pelo qual França e Polónia formalizaram uma aliança estratégica reforçada, colocando Varsóvia ao mesmo nível de Berlim entre os aliados prioritários de Paris.
O chefe de Estado francês faz-se acompanhar por quatro ministros - Defesa, Negócios Estrangeiros, Energia e Cultura -, sinal de um programa particularmente denso. E o contexto pesa. Com a guerra na Ucrânia a prolongar-se há mais de três anos, e com o conflito no Irão a reacender tensões globais, o rearmamento europeu acelerou.
Neste quadro, os dois líderes convergem numa mesma meta: construir uma Europa capaz de se defender por si própria. “Temos pontos de vista muito próximos sobre a forma de construir a força da Europa e a soberania da Polónia, da França e da Europa”, sintetizava Tusk esta sexta-feira.
A bomba francesa como escudo europeu
No centro das conversas está a dissuasão nuclear «avançada» proposta por Macron no início de março, no seu discurso marcante na Île Longue. Na prática, o Presidente francês propôs a oito países europeus - entre os quais a Polónia, a Alemanha, a Bélgica, os Países Baixos e a Espanha - a possibilidade de participarem em exercícios conjuntos de ataque e de acolherem, no seu território, aeronaves francesas equipadas com arma nuclear. A decisão de recorrer à bomba continuaria, porém, exclusivamente nas mãos do Eliseu.
Para Varsóvia, o interesse é duplo. Segundo Aleksander Olech, especialista do Defence24, esta aproximação “não é apenas um sinal dirigido à Rússia, é também *uma mensagem para os Estados Unidos, indicando que a Polónia pode ter outros aliados nucleares que oferecem as suas próprias garantias de segurança***”.
Até porque, enquanto Donald Trump continua a pressionar e a tratar com dureza os parceiros europeus, a Polónia - apesar de ser um grande cliente do armamento norte-americano - procura diversificar os seus apoios. A cooperação com a França poderá também reforçar a posição polaca no sistema de partilha nuclear da OTAN.
Mísseis, satélites e querosene
Deverão ser assinados vários acordos de parceria. Para lá do nuclear, espera-se que os dois países cheguem também a entendimento sobre satélites de comunicações militares. Estão igualmente previstas discussões sobre sistemas de mísseis e sobre o programa ELSA, uma iniciativa europeia de desenvolvimento conjunto de mísseis de cruzeiro de longo alcance, na qual a Polónia participa desde 2024.
Outro dossiê em cima da mesa é o reabastecimento em voo. A Polónia, cuja frota de aeronaves capazes de reabastecer em voo deverá ultrapassar a centena de aparelhos até 2030, não tem qualquer avião reabastecedor próprio. É referida a hipótese de aquisição de Airbus A330 MRTT franceses. Por fim, a EDF espera garantir um papel na construção da segunda central nuclear polaca.
A nossa análise
A cimeira de Gdansk integra-se numa dinâmica nítida: o rearmamento acelerado da Europa perante uma ameaça russa considerada duradoura. E a cooperação franco-polaca envia um sinal que vai muito além dos dois países envolvidos, num momento em que certezas e alianças vacilam. O Velho Continente pretende mostrar-se tanto mais unido.
Neste cenário, a França ocupa um lugar singular. Única potência nuclear da União Europeia desde o Brexit, dispõe de uma alavanca que nenhum outro Estado-membro possui - e que Macron encara como uma ferramenta diplomática de primeira linha.
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