Christine Lagarde e a subida dos juros do BCE em Sintra
No discurso de abertura do Fórum do BCE, em Sintra, esta segunda-feira, Christine Lagarde procurou contrariar a interpretação que ganhou força nos mercados depois da decisão de 11 de junho: a primeira subida de juros em quase três anos. A presidente do Banco Central Europeu (BCE) afastou a ideia de que se tenha tratado de uma medida meramente preventiva, defendendo que foi uma opção fundamentada nos dados.
“"Houve quem caracterizasse a subida das taxas de juro que efetuámos no início deste mês como uma 'subida de segurança' – esta descrição não é correta"”, afirmou a economista francesa. E acrescentou que “"a nossa análise mostrou que manter as taxas de juro constantes teria deixado a inflação acima de 2% em 2027 e 2028"”.
Na reunião mais recente, o BCE decidiu elevar a taxa de depósitos para 2,25%, um aumento de 25 pontos base. A medida era amplamente esperada pelo mercado e tinha sido sustentada publicamente por vários responsáveis da instituição. Entre os argumentos, houve quem defendesse que a subida era necessária para preservar a credibilidade do BCE, acusado de ter reagido tarde durante o pico inflacionista de 2022 - interpretação que alimentou a leitura de que Lagarde estaria a reforçar o papel do banco mais por sinalização do que por exigência de estabilidade de preços.
Lagarde rejeita essa perspetiva e sustenta que foi a própria projeção central do BCE a tornar o movimento inevitável. “"Deparávamo-nos com perspetivas de um aumento da inflação global e da inflação subjacente, além de uma projeção de regresso da inflação a 2% apenas no último trimestre de 2027 - e mesmo isso dependia de um ajustamento da política monetária.""
A presidente insistiu ainda que o racional se mantinha sólido: “"O aumento das taxas de juro era justificado em todos os cenários ponderados. Foi uma decisão robusta do ponto de vista da conceção e nada do que observamos desde então pôs em causa a nossa apreciação"”, continuou.
Entretanto, os progressos nas negociações entre os Estados Unidos e o Irão aliviaram a pressão sobre o petróleo, que voltou a níveis pré-guerra, embora os combustíveis continuem muito acima. Depois de ter tocado quase 120 dólares por barril em março, no auge da guerra no Médio Oriente, o preço recuou para cerca de 73 dólares após o acordo de paz provisório da semana passada. Ainda assim, Lagarde admitiu que a durabilidade desse acordo “"não está assegurada"”.
Alguns economistas - como os da Oxford Economics - consideram agora menor a necessidade de o BCE voltar a subir juros. Em contrapartida, Isabel Schnabel, membro do Conselho Executivo do BCE, advertiu que o aperto monetário ainda não chegou ao fim. Do lado do mercado, a expectativa aponta para mais uma subida até ao final do ano, o que colocaria a taxa de depósitos em 2,5%.
Próximas decisões do BCE: critérios e calendário
Sobre o que se segue, a primeira etapa será a reunião de 23 de julho. Lagarde reiterou os três critérios que, segundo ela, orientam as decisões futuras: “"As nossas decisões sobre as taxas de juro norteiam-se pelas perspetivas de inflação, pela dinâmica da inflação subjacente e pela força da transmissão da política monetária."” Como seria previsível, evitou indicar qual poderá ser o próximo passo.
Quanto aos números recentes, a inflação na zona euro chegou a 3,2% em maio, um máximo de mais de dois anos e meio. Nas projeções mais recentes, o BCE estimou que a inflação permaneça em 3% até ao final deste ano e desça para 2,3% no próximo.
Como lidar com choques cada vez mais frequentes
Na leitura de Lagarde, os grandes choques tornaram-se mais comuns e assumiram novas formas (“"o acesso ao mercado, o abastecimento energético e os minerais críticos são cada vez mais utilizados como arma"”), o que cria uma primeira dificuldade para os modelos: o impacto passa a depender de reações estratégicas que podem já não seguir padrões históricos.
O exemplo escolhido pela presidente foi o das tarifas norte-americanas do ano passado. A teoria económica apontava para uma depreciação do euro face ao dólar e para um travão no investimento; na prática, verificou-se uma apreciação acentuada da moeda europeia, à medida que os investidores reavaliaram o lugar dos Estados Unidos no sistema financeiro mundial. Também a resposta política saiu do guião: “"A União Europeia não retaliou, dando prioridade à relação estratégica com os Estados Unidos em detrimento dos seus interesses comerciais"”, enquanto os governos europeus responderam com “"o maior aumento da despesa em defesa registado em décadas - uma resposta endógena que compensou, em parte, os entraves do comércio"”.
A segunda característica destacada é a volatilidade: estes choques podem agravar-se com rapidez e intensidade, mas também dissipar-se num curto espaço de tempo. “"Os ciclos de intensificação, negociação, acordos anunciados e reversões provocaram movimentos rápidos nos mercados petrolíferos - por vezes, em poucos dias"”, notou Lagarde.
Daqui resulta, segundo a presidente, que a política monetária entra “"em novo território"”. Como a Europa construiu maior resiliência, os choques que empurram a inflação para longe da meta tendem a produzir efeitos mais contidos, o que faz com que o BCE se veja mais vezes numa “"zona intermédia, entre choques que podemos observar sem atuar e choques a que temos de reagir com determinação"”.
Para Lagarde, o outro lado da moeda é a dificuldade acrescida em interpretar estes movimentos, que também podem mudar de direção rapidamente. Por isso, sublinha, a calibração da resposta torna-se ainda mais determinante.
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