Num fim de tarde abrasador, é fácil supor que a abelha que aguenta mais calor será a que tem mais hipóteses num planeta em aquecimento. As espécies mais rijas, moldadas pelos locais mais quentes, parecem prontas para resistir a um mundo cada vez mais quente, enquanto as mais sensíveis ficariam para trás.
Um estudo amplo sobre abelhas selvagens da Austrália mostra que essa intuição pode falhar. Muitas vezes, quem sente primeiro o aperto do calor são precisamente as espécies mais resistentes - e a explicação passa pelo sítio onde cada uma constrói o ninho.
A morada de uma abelha
A Austrália alberga cerca de 1.700 tipos de abelhas nativas, que fazem ninho de três formas principais. Algumas escavam galerias no solo, afastadas da radiação directa do sol.
Outras instalam-se em madeira oca, por exemplo num ramo morto ou numa cavidade de árvore. Um terceiro conjunto nidifica dentro de caules e raminhos finos, com muito pouca protecção entre o corpo e o ar quente do exterior.
A investigação foi liderada por Carmen R. B. da Silva, investigadora da Universidade Macquarie, em Sydney. A equipa quis perceber como estas opções de nidificação podem pesar num mundo mais quente. A conclusão é que, à medida que as temperaturas sobem, a localização do ninho pode tornar-se decisiva.
Dentro do ninho da abelha
Para quantificar quanto calor uma abelha suporta, os investigadores aqueceram lentamente os insectos em água. A temperatura foi subindo, passo a passo, até ao momento em que cada indivíduo deixou de se mexer. Esse ponto de quebra define a sua tolerância ao calor.
Num raminho fino, o ar pode atingir valores muito mais elevados do que no solo, a alguns centímetros de profundidade, onde as abelhas escavadoras conseguem atravessar as horas mais quentes da tarde. O ninho funciona como um microclima privado, parcialmente isolado do tempo lá fora.
Os resultados foram o oposto do palpite mais óbvio. As espécies que nidificam em caules - a “assar” em ramos pouco isolados - apresentaram a maior tolerância ao calor de todos os grupos, enquanto as que fazem ninho no chão, protegidas por galerias mais frescas, mostraram a menor. Ou seja, as abelhas mais duras apareceram nos “quartos” mais quentes.
A razão provável é a possibilidade de fuga. Uma abelha que nidifica no solo pode recolher para camadas mais profundas, pelo que o calor talvez nunca a tenha empurrado para limites muito altos. Já uma abelha de caule, sem refúgio, parece ter sido “afinada” para aguentar.
As mais resistentes não estão a salvo
Agarrar-se ao calor não é o mesmo que estar protegida dele. O que interessa é a diferença entre o limite de cada abelha e a temperatura máxima a que efectivamente é exposta.
Essa diferença é a sua margem de segurança. Até este trabalho, essa margem era calculada comparando o limite térmico com a temperatura do ar aberto no local onde a abelha era capturada.
Visto assim, as abelhas que nidificam no chão parecem as mais em risco, porque os seus limites são mais baixos. Mas quando se inclui o calor sufocante dentro dos ninhos, a hierarquia inverte-se. As espécies que nidificam acima do solo acabam com as margens mais curtas. Uma reviravolta completa.
A maior tolerância ao calor não compensa totalmente o ambiente mais quente em que vivem. Uma abelha de caule pode suportar mais calor do que uma escavadora, mas enfrenta muito mais - por vezes o suficiente para consumir a “almofada” de segurança.
Segundo da Silva, isto coloca as nidificadoras em caules na primeira linha de vulnerabilidade à medida que o clima aquece, porque têm menos espaço para escapar quando as condições se tornam duras. Outros estudos já relacionam o aumento de temperatura e a secura com a redução do número de abelhas.
As abelhas tropicais sofrem
A geografia tornou o padrão ainda mais nítido. Em geral, as abelhas mais próximas do equador revelaram-se mais vulneráveis, e as espécies tropicais foram as que enfrentaram o risco mais elevado.
Identificar antecipadamente quem perde com o aquecimento é um dos desafios mais difíceis em ecologia. A autora sénior do estudo, Vanessa Kellermann, docente sénior na Universidade La Trobe, concluiu que as abelhas mais “endurecidas” ao calor podem enganar esse tipo de previsão.
“Descobrimos que as espécies de abelhas com a maior tolerância ao calor não eram necessariamente as mais seguras face ao aquecimento, porque muitas delas já vivem em ambientes extremamente quentes”, afirmou Kellermann.
Uma abelha que já está perto do seu tecto térmico tem pouca margem quando a temperatura sobe mais um pouco.
O risco chega também à alimentação, porque as abelhas nativas tropicais são polinizadoras importantes de culturas como macadâmias, abacates e mangas.
Um artigo separado já tinha mostrado que muitos insectos tropicais têm pouca tolerância ao calor disponível.
Não é treino ao calor
Uma objecção evidente seria que as abelhas de caule apenas “endurecem” com o calor do momento - um ajuste de curto prazo, e não uma diferença profunda. A equipa testou essa hipótese.
No local com maior variação, perto de Melbourne, recolheram amostras mês após mês durante toda a estação quente. Se a tolerância ao calor fosse algo adquirido a partir do tempo, deveria aumentar à medida que o verão avançava. Quase não mudou.
A maior parte da variação dependia muito mais da espécie de abelha do que do mês em que foi capturada. Os limites térmicos parecem estar incorporados, definidos ao longo de gerações, e não “aprendidos” numa estação. É um resultado de evolução, não de um ajuste rápido.
O que muda agora
Durante anos, o limite térmico de um insecto pareceu ter apenas uma ligação fraca ao local onde vivia, o que levou muitos cientistas a encará-lo como algo simplesmente fixo. Ao considerar o microclima escondido do ninho, o enigma torna-se mais claro. Sabendo onde uma abelha nidifica, o seu limite térmico passa a fazer sentido no contexto do seu ambiente.
Isto altera a forma como se pode ordenar o risco. Quando ninguém mediu o limite térmico de uma espécie, o seu hábito de nidificação, por si só, pode indicar o grau de exposição. Assim, torna-se possível reavaliar quais as espécies que parecem mais urgentes de proteger.
O alívio para as nidificadoras no solo vem com um porém. Todas as abelhas saem do ninho para procurar alimento, pelo que também o grupo subterrâneo sentirá o calor à medida que o aquecimento se intensifica.
Saber que espécies estão mais perto do limite - e porquê - dá à conservação um ponto de partida mais preciso.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário