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Margaret Atwood partilha memórias no Porto no festival literário Babell

Mulher a falar ao público numa leitura ao ar livre, com livro aberto e copo de água na mesa.

A escritora canadiana e multipremiada Margaret Atwood - autora, entre outros sucessos, de "História de uma Serva" - esteve este fim de semana no Porto, no âmbito do festival literário Babell, onde falou sobre o seu percurso pessoal e profissional, do feminismo à crítica literária, passando pela infância, pelo assédio entre pares na escola e pelo próprio processo de escrita.

Margaret Atwood no festival literário Babell, no Porto

Sob um sol intenso, milhares de pessoas concentraram-se na tarde de sábado, 27 de junho, e fizeram fila até à zona do Jardim da Cordoaria para conseguirem entrar na sessão literária integrada no Babell, festival que decorre no Porto até à próxima segunda-feira.

O encontro começou às 16:17, na Praça de Gomes Teixeira - também conhecida como Praça dos Leões -, com moderação da escritora e tradutora Tânia Ganho. A moderadora abriu a conversa perguntando a Atwood como conseguira reconstituir tantos pormenores do passado para preencher 600 páginas de memórias.

Memórias, diário e o processo de escrita de Margaret Atwood

Atwood explicou que o livro nasceu apoiado num diário que mantém "junto à cama", onde regista - e continua a registar - o quotidiano. Sublinhou que as memórias se constroem a partir do que realmente recordamos: sejam "coisas estúpidas" que fez, coisas estúpidas que lhe fizeram, catástrofes, episódios cómicos ou experiências próximas da morte. "Tenho que escrever tudo, senão esqueço tudo", afirmou a autora de "História de uma Serva", acrescentando que "pessoas diferentes têm memórias diferentes do mesmo evento".

Infância no Norte do Canadá e assédio escolar

A escritora recuou à infância, passada em florestas remotas do norte do Canadá, no Quebec, devido ao trabalho do pai, entomólogo, que passava oito meses por ano a estudar insetos. Essa experiência de isolamento, disse, acabaria por marcar a sua escrita. Em casa, contou, não havia eletricidade, nem água canalizada, nem máquina de lavar roupa.

Confrontada com as memórias do assédio de que foi alvo em criança, Atwood confirmou que teria cerca de nove anos e que eram sobretudo as raparigas a praticá-lo.

"É bastante diferente entre meninas e meninos. Os meninos geralmente têm uma hierarquia aberta. Quem é o melhor nisso, ou o maior, ou quem é bom em desportos é o garoto superior e os outros organizam-se em pirâmide abaixo. As meninas é muito mais como a corte bizantina. Um dia és a favorita, há uma campanha de conspiração e é exposta. Não há razão para que alguém aponte o dedo, mas uma está dentro e a outra está fora. É uma dinâmica bem diferente", disse.

Feminismo, crítica e a Marcha do Orgulho LGBTI+

Questionada sobre a possibilidade de os seus livros terem assustado leitores masculinos e críticos, Atwood admitiu que sim, mas observou - com humor - que hoje o efeito é menor por estar mais velha, o que provocou risos na plateia. "Eles estão menos assustados do que eram antes, porque agora eu posso ser uma figura velha. É uma questão de idade. Quanto mais velhos somos, mais somos aceites. Há uma equação. Quando você é um escritor jovem, você é uma estrela promissora (...), a meio da carreira, tens a mesma idade que teus críticos, então és alguém que realmente os entende (...) Mas quando és mais velha do que as pessoas que estão escrever sobre ti, és uma mulher inteligente ou uma bruxa velha".

Sobre a questão de se considerar feminista, a escritora lembrou que, segundo a Wikipédia, existem 75 tipos diferentes de feminismo, e que, quando lhe colocam a pergunta, responde com outra: qual deles? Acrescentou que não se revê num feminismo que defenda o desaparecimento dos homens, mantendo apenas 10% para fins de procriação.

"Não. Eu não sou desse tipo. Estou interessada em direitos humanos, os direitos das mulheres são um subsetor dos direitos humanos e os direitos humanos incluem os homens".

A autora de "História de uma Serva" referiu ainda que recebe cartas de vários pontos do mundo onde lhe dizem que "História de uma serva" não é ficção.

A certa altura, a sessão foi interrompida pelo ruído que chegava da Marcha do Orgulho LGBTI+ no Porto, que reuniu várias centenas de pessoas para "lembrar para não repetir" a morte de Gisberta Salce, assassinada em 2006, e para alertar para "o retrocesso" nos direitos das pessoas transexuais. Ao perceber que se tratava de uma manifestação em defesa dos direitos humanos das pessoas trans, Atwood fez questão de aplaudir durante a breve pausa.

No final, a sessão terminou com milhares de pessoas a levantarem-se para aplaudir a escritora.

Percurso literário de Margaret Atwood e programa do Babell

Margaret Eleanor Atwood, 86 anos, começou a escrever aos seis anos, entrou para a escola a tempo inteiro aos 12 e, aos 16, iniciou a escrita profissional. É romancista, poetisa, contista, ensaísta e crítica literária com reconhecimento internacional, tendo recebido vários prémios literários, entre os quais o primeiro Prémio Arthur C. Clarke Award, em 1987, com "A História de uma serva", obra que a própria afirmou ser "ficção científica social". Em alguns romances, a autora retrata personagens femininas dominadas pelo patriarcado.

O festival literário Babell começou na quarta-feira e prolonga-se até segunda-feira, reunindo nomes como Olga Tokarczuk e Salman Rushdie num programa que inclui sessões literárias, concertos, cinema e outras apresentações. O evento representou um custo superior a 3 milhões de euros para a fundação da Livraria Lello, excluindo o apoio da Câmara do Porto, que coorganiza a iniciativa.

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