Saltar para o conteúdo

A salamandra-de-fogo revela biofluorescência turquesa sob luz ultravioleta

Salamandra colorida sobre musgo iluminada por lanterna UV em investigação de campo com caderno e luvas azuis.

A pele da salamandra-de-fogo desperta curiosidade científica desde o século XIX.

Durante décadas, investigadores analisaram as suas secreções tóxicas, e as cores vivas de aviso tornaram-se um exemplo clássico no ensino da biologia.

Ainda assim, no meio de tanta atenção, passou despercebida uma característica inesperada. Testes recentes com luz ultravioleta revelaram que as secreções cutâneas desta salamandra fluorescem.

Um brilho turquesa escondido

Bernat Burriel-Carranza, do Museu de Ciências Naturais de Barcelona, liderou uma equipa dedicada ao estudo da salamandra-de-fogo.

Quando exposta a luz ultravioleta, a salamandra-de-fogo emite um brilho suave, de tom turquesa. Este efeito aparece sobretudo ao longo do ventre e desce pelas laterais do corpo.

Este fenómeno chama-se biofluorescência e, até agora, nunca tinha sido registado nesta espécie.

O mais surpreendente é que, apesar de mais de um século de investigação, ninguém tinha observado a salamandra-de-fogo sob luz ultravioleta.

“Recorda-nos que mesmo os organismos mais familiares podem esconder segredos que só são revelados quando são observados com novas ferramentas”, afirmou Burriel-Carranza.

Não é como a luz dos pirilampos

Este brilho não funciona como a luz de um pirilampo. O pirilampo produz luz própria através de uma reacção química no interior do corpo, o que se enquadra na bioluminescência.

A salamandra não faz nada disso. Na sua pele existem substâncias químicas que absorvem luz ultravioleta e a reemitem como luz visível, em comprimentos de onda verdes e cianos.

Sem uma lâmpada específica, quem passasse por perto veria apenas o padrão habitual de preto e amarelo. As cores ocultas ficam fora do alcance da visão humana, o que ajuda a explicar por que motivo esta característica permaneceu ignorada durante tanto tempo.

Luz que vem das glândulas

Uma observação mais atenta revela um padrão claro. A emissão mais intensa surge nas glândulas da pele e nas secreções pegajosas que estas libertam - as mesmas glândulas associadas ao veneno defensivo.

E o efeito não desaparece quando a secreção sai do corpo. Mesmo espalhadas numa superfície, essas substâncias continuam a brilhar por mais de 24 horas. Não é comum que a luz se mantenha depois de o animal já ter seguido caminho.

O sinal também não se limita ao exterior. Compostos presentes no sangue e nas glândulas da salamandra também emitem fluorescência.

Isto indica que a substância fluorescente pode estar distribuída por todo o organismo. Antes deste trabalho, apenas rãs arborícolas sul-americanas tinham apresentado algo semelhante, num estudo anterior.

Um aviso com mais de um século

A coloração preta e amarela, bem marcada, é um exemplo de manual de coloração de aviso - o “código” que comunica aos predadores que o animal é perigoso para comer.

Há mais de um século, químicos atribuíram o veneno a uma família de toxinas muito potentes derivadas do colesterol.

O que ninguém antecipava era que essas mesmas secreções pudessem fluorescer. A química da pele da salamandra-de-fogo foi estudada ao longo de décadas.

Essa longa história de análises tornou o resultado particularmente estranho para Andrés Brunetti, investigador no Instituto Max Planck de Ecologia Química e co-autor do estudo.

“A presença deste composto fluorescente foi surpreendente porque as secreções cutâneas das salamandras têm sido estudadas quimicamente há décadas, e não tínhamos conhecimento de quaisquer relatórios publicados sobre fluorescência”, disse Brunetti.

Para que serve o brilho?

A função deste brilho continua por esclarecer. A equipa sublinha que não demonstrou uma finalidade: apenas observou que a característica se comporta como um sinal. Uma hipótese é que esteja ligada à comunicação.

A fluorescência surge em zonas do corpo que as salamandras costumam exibir umas às outras.

Pode ajudá-las a detectar-se no escuro, contribuir para a reprodução, ou servir para assinalar a toxicidade a predadores.

Um animal com sensibilidade visual adequada poderá detectar sinais cianos onde os humanos apenas vêem escuridão. Um levantamento abrangente já encontrou muitas rãs e salamandras que brilham sob este tipo de luz.

O composto misterioso

Apesar de todos os pormenores observados, falta ainda uma peça central. Continua sem se saber qual é a substância química responsável pelo brilho, embora os dados apontem para uma molécula que nunca tinha sido identificada neste animal.

A equipa de Burriel-Carranza está agora a tentar determinar exactamente qual é o composto. Identificá-lo poderá esclarecer tanto a origem da fluorescência como a sua função biológica.

Enquanto esse composto não for caracterizado, a sua “tarefa” também permanece incerta. Os investigadores conseguem descrever a aparência do brilho e onde ele se manifesta, mas não por que motivo o animal o produz.

Novas descobertas pela frente

Pela primeira vez, foi demonstrado que a salamandra-de-fogo emite um brilho turquesa a partir das próprias glândulas que armazenam o veneno.

A partir daqui, abre-se espaço para investigar se as salamandras usam esta luz oculta para encontrar parceiros, afastar predadores e até se uma simples lâmpada UV poderia ajudar a monitorizar uma espécie vulnerável.

Um animal tão conhecido e tão estudado escondia, ainda assim, um segredo - à espera de ser observado de uma forma diferente.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário