Para conseguirem viver neste planeta tão imprevisível que chamamos casa, os seres humanos têm de se adaptar. E isso não é apenas uma questão de força de vontade: é também biologia. Perante pressões ambientais diferentes, o corpo vai-se transformando ao longo das gerações, ajustando características que aumentam a capacidade não só de sobreviver, mas de prosperar.
Um exemplo clássico surge nas grandes altitudes, onde algumas populações humanas desenvolveram respostas a níveis mais baixos de oxigénio no ar. Agora, investigadores identificaram marcas genéticas de adaptação na Ilha de Jeju, na Coreia do Sul, inscritas no ADN das Haenyeo - mulheres que fazem mergulho em apneia em águas geladas, durante todo o ano, para recolher alimento no fundo do mar.
As Haenyeo de Jeju e a adaptação humana
Durante séculos, a economia de Jeju apoiou-se no trabalho das Haenyeo. Hoje, porém, a procura pelos seus serviços está a diminuir, e a maioria destas mulheres é idosa: a idade média ronda os 70 anos - o que faz desta comunidade, possivelmente, a última geração a manter a tradição.
"São mulheres absolutamente extraordinárias", afirma a geneticista Melissa Ilardo, da University of Utah. "Todos os dias, saem e entram na água, e é lá que trabalham o dia inteiro. Vi mulheres com mais de 80 anos a mergulhar de um barco antes mesmo de ele parar completamente."
Ilardo tem dedicado anos ao estudo de adaptações humanas a ambientes extremos. Em 2018, ela e os seus colegas publicaram um artigo em que descreveram a primeira população conhecida com adaptações genéticas evoluídas para o mergulho em apneia no oceano - o povo Bajau Laut, do Sudeste Asiático.
O que a equipa quis testar
A questão era perceber se existiriam adaptações semelhantes que reforçassem as capacidades das Haenyeo quando descem a profundidades de cerca de 10 metros para recolher recursos como abalones e algas sob águas frias e pesadas.
Como foi feito o estudo
O estudo contou com 91 participantes: 30 mergulhadoras Haenyeo; 30 habitantes de Jeju que não mergulham; e 31 pessoas de Seul, no continente sul-coreano. A idade média, considerando todos os participantes, foi de 65 anos.
Foram recolhidas amostras de ADN e, além disso, mediram-se a frequência cardíaca e a tensão arterial, tanto em repouso como durante um mergulho simulado. Nesse teste, os participantes mergulharam o rosto numa tigela com água fria.
"Se prender a respiração e colocar o rosto numa tigela cheia de água fria, o seu corpo reage como se estivesse a mergulhar", explica Ilardo. "Muitos dos mesmos processos acontecem no corpo como se saltasse para o oceano, mas de uma forma segura para pessoas sem experiência de mergulho."
O que os genes e o corpo revelaram
De forma interessante, não apareceu qualquer diferença genética entre as mergulhadoras Haenyeo e os outros habitantes de Jeju. Ainda assim, as populações de Jeju apresentaram uma diferença clara quando comparadas com os residentes de Seul: eram mais de quatro vezes mais propensas a ter uma variação genética associada a tensão arterial mais baixa.
A explicação provável, segundo os autores, é que prender a respiração - algo essencial no mergulho em apneia - faz subir a tensão arterial. Assim, partir de níveis naturalmente mais baixos pode ser crucial para as Haenyeo, que trabalham mesmo durante a gravidez. Uma tensão arterial elevada na gravidez pode desencadear problemas como a pré-eclâmpsia, que pode ser bastante perigosa tanto para a mãe como para o feto.
"Esta associação pode reflectir selecção natural para mitigar as complicações de hipertensão diastólica vividas por mulheres mergulhadoras enquanto mergulham durante a gravidez", diz Ilardo. "Como as mulheres Bajau também mergulham quando estão grávidas, perguntamo-nos se a gravidez estará, na verdade, a impulsionar muitas das alterações genéticas nestas populações mergulhadoras."
Há ainda um sinal epidemiológico compatível com esta ideia: a taxa de mortalidade por AVC em Jeju é mais baixa do que na maior parte da Coreia, o que sugere que esta adaptação poderá trazer benefícios adicionais, uma vez que o AVC está associado a tensão arterial elevada.
A segunda diferença genética detectada entre as populações de Jeju e do continente relaciona-se com a tolerância do corpo à dor provocada pelo frio. A equipa considera que isto poderá ajudar a tornar as mergulhadoras menos vulneráveis à hipotermia, dado que mergulham ao longo de todo o ano, incluindo no Inverno, quando as temperaturas descem para valores próximos de congelação.
"Embora não tenhamos medido a fisiologia da termorregulação no nosso estudo, isto representa um caminho para investigação futura", escrevem os autores.
Houve, no entanto, um achado especialmente curioso ao comparar as Haenyeo com as não mergulhadoras de Jeju. No cenário do mergulho simulado, a frequência cardíaca das Haenyeo abrandou muito mais do que a de qualquer um dos grupos de controlo. Para os investigadores, isto indica que este ajuste do ritmo cardíaco é aprendido, e não genético - um efeito de décadas de prática.
Porque é que estes resultados podem importar
Segundo os investigadores, estes dados podem ajudar a compreender melhor como funciona o corpo humano, como respondemos a pressões ambientais e que impacto essas mudanças têm noutros desfechos de saúde.
"Estamos muito entusiasmados por aprender mais sobre como estas alterações genéticas poderão estar a afectar a saúde da população mais ampla de Jeju", afirma Ilardo. "Se conseguirmos caracterizar com mais profundidade como essas alterações influenciam a fisiologia, isso poderá inspirar o desenvolvimento de terapêuticas para tratar diferentes condições, como perturbações hipertensivas da gravidez e AVC."
A investigação foi publicada na revista Cell Reports.
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