Devia ser óbvio, mas a nossa alimentação não é adequada para macacos - e pode até ser francamente tóxica. Em Gibraltar, os macaques pagam o preço, apesar de os turistas serem repetidamente alertados.
Pode parecer tentador estender um snack a um macaco por “simpatia” ou pela sensação de que se está a criar uma ligação com o animal, mas é das piores ideias que pode ter. Em alguns locais, esta prática, alimentada pelo turismo de massas, provoca estragos sérios; em Gibraltar isso é particularmente visível, mais concretamente na Rocha de Gibraltar, um monólito calcário onde vivem 230 macacos-de-barbária (Macaca sylvanus). É um cenário magnífico no sul da Península Ibérica: estes animais circulam em liberdade na reserva natural do Upper Rock e, ainda assim, aproximam-se sem receio das zonas mais turísticas.
Mesmo sendo proibido dar-lhes comida e até tocar-lhes, há sempre quem ignore as regras. Para lá de interferir com o seu instinto de caçador-recolector e de, por vezes, desencadear confrontos agressivos entre macacos que competem por esmolas, estes animais acabaram por desenvolver um comportamento específico para se “desintoxicar”: a geofagia, isto é, comer terra - mais precisamente argila vermelha, abundante na Rocha de Gibraltar.
Turismo de massas e comida humana na Rocha de Gibraltar
Alimentar um macaco: o gesto altruísta que acaba na lama
A Rocha recebe perto de 850 000 visitantes por ano - um enorme motor turístico para o Governo de Gibraltar, que fez de tudo para tornar o local compatível com a lógica do Instagram. Há miradouros suspensos sobre o vazio, uma ponte suspensa, uma gruta adaptada para visitas e, sobretudo, dezenas de lojas de lembranças e de comida, onde os produtos são vendidos sem IVA (ou com impostos muito reduzidos). Em suma, está tudo montado para levar consigo os melhores selfies, idealmente ao lado dos célebres macacos, que se concentram junto destes pontos de venda e das zonas onde os autocarros deixam os visitantes.
Esta proximidade entre pessoas e animais tem efeitos profundos no modo de vida dos macaques. Hoje, estima-se que 20 % de toda a alimentação deles venha de comida humana. Chocolate, batatas fritas, gelados ou bolachas industriais - produtos muito calóricos, carregados de açúcar e de sal e, em alguns casos, com lacticínios - atraem-nos inevitavelmente. Embora a dieta natural deles (ervas, folhas, sementes e, ocasionalmente, insectos) seja o completo oposto, o cérebro dos macacos, tal como o nosso, está preparado para privilegiar fontes rápidas de energia.
Geofagia com argila vermelha: a automedicação dos macaques
O problema é que esta comida funciona quase como uma substância viciante para eles: um macaco que prova um gelado bem doce dificilmente volta com facilidade às raízes amargas. A isto soma-se um factor importante: são intolerantes à lactose, e é também por isso que recorrem à argila. Rica em óxidos de ferro, quando chega ao estômago, esta argila reveste a parede intestinal e ajuda a absorver toxinas, reduzindo a passagem de compostos nocivos para o organismo. É uma espécie de Smecta artesanal, que baixa o pH do estômago e neutraliza a acidez causada pela fermentação de açúcares rápidos.
Desta forma, acabam por praticar automedicação para compensar a inconsciência de muitos turistas que, ao que parece, não repararam nos inúmeros painéis de proibição espalhados pela Rocha. Além disso, a geofagia passa de geração em geração: ao verem os adultos a comer terra, as crias aprendem desde cedo que a sobrevivência pode depender deste ritual de “detoxificação”.
Quando o “remédio” também se torna um risco
O mais irónico é que este “remédio” está longe de ser um verdadeiro remédio: estas argilas contêm metais pesados (nomeadamente chumbo), ovos de parasitas e bactérias fecais. Com o consumo repetido, os macacos desgastam os dentes de forma precoce e podem vir a sofrer de oclusões intestinais. Se for a Gibraltar este verão, por favor, use o bom senso: observe estes animais magníficos, mas deixe-os em paz. E este conselho aplica-se a qualquer lugar onde encontre macacos; são animais selvagens e sabem perfeitamente alimentar-se sozinhos.
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