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Testes sanguíneos para concussões em idosos: valores-limite ajustados por idade e sexo

Mulher idosa hospitalizada com curativo na testa, olhando para médico que segura tubo de ensaio e tablet.

Os testes sanguíneos para concussões existem há anos e são um procedimento comum nas urgências para avaliar possíveis lesões cerebrais e decidir quem deve fazer um exame de imagem.

Os médicos têm motivos para confiar nestes testes, mas eles não foram concebidos a pensar em doentes mais velhos.

O que estes testes fazem é detetar proteínas, e os níveis dessas proteínas tendem a aumentar com a idade. Por isso, um valor que indica lesão aos 35 anos pode não ter qualquer significado aos 75.

Um novo estudo procurou saber se valores-limite ajustados à idade e ao sexo de cada doente conseguiriam reduzir essa diferença.

As quedas podem enganar os médicos

Após um traumatismo craniano, os médicos das urgências recorrem a uma lista de verificação bem conhecida, à procura de sinais como confusão, estado atordoado ou pensamento mais lento.

No entanto, num doente idoso, tudo isso pode refletir envelhecimento ou efeitos de medicação - não necessariamente um impacto na cabeça.

Foi precisamente essa sobreposição que uma equipa liderada pelo Dr. Gershon Spitz, da Universidade Monash em Melbourne, Austrália, quis resolver.

O objetivo era encontrar um sinal objetivo que pudesse ser medido em laboratório e que não dependesse da interpretação do clínico.

Além disso, os adultos mais velhos chegam às urgências com lesões na cabeça mais frequentemente do que qualquer outro grupo etário e, depois, recuperam com mais lentidão.

Proteínas cerebrais no sangue

Quando as células do cérebro são danificadas, libertam proteínas para a corrente sanguínea, onde podem ser medidas horas mais tarde com um simples teste ao sangue.

A abordagem não é nova. Uma revisão anterior descreveu como duas destas proteínas se tornaram uma ferramenta já autorizada para utilização em adultos.

A equipa de Spitz avaliou quatro proteínas em simultâneo e uma destacou-se. Tratava-se de um marcador chamado proteína ácida fibrilar glial, ou GFAP, que aparece no sangue após uma lesão.

Os outros três marcadores também aumentaram em doentes lesionados, mas nenhum separou tão claramente os feridos dos saudáveis.

Para testar a força do sinal, os investigadores compararam 89 voluntários com 60 anos ou mais, alguns com lesões recentes e outros sem quedas recentes.

O resultado que se destacou

Em comparação com os voluntários sem lesões, a GFAP distinguiu os dois grupos quase na perfeição até três dias após uma queda.

Na escala usada pelos investigadores para medir a precisão diagnóstica, o resultado ficou praticamente tão alto quanto um teste isolado consegue, de forma realista.

Isto é coerente com o que se sabe sobre a proteína. A GFAP sobe rapidamente no sangue depois de um impacto - um padrão que um estudo com doentes traumatizados já tinha acompanhado.

Quando a maioria dos doentes mais velhos chega ao hospital, o sinal já está presente. Ainda mais relevante foi o facto de o marcador se manter elevado mesmo em doentes cujas tomografias cerebrais (ou outros exames) não mostravam alterações.

Um exame de imagem normal pode não detetar lesões cerebrais que, ainda assim, deixam estas proteínas no sangue. Aqui, o sangue indicou um problema que a imagem não tinha evidenciado.

A idade redefine o valor-limite

Um teste só é tão útil quanto a linha que separa o normal do anormal - e essa linha mudou com a idade.

O nível considerado saudável de GFAP aumenta de forma constante à medida que as pessoas envelhecem, pelo que uma leitura preocupante aos 60 pode ser completamente habitual aos 80.

No teste atualmente aprovado, o valor-limite, estabelecido sobretudo com base em doentes mais jovens, fica perto de 22 unidades.

Neste grupo mais velho, o limiar adequado foi quatro a dez vezes mais alto, subindo de cerca de 94 para mais de 200 entre os 60 e os 84 anos. Isto correspondeu a quase uma duplicação ao longo dos anos mais avançados.

O sexo também teve influência. Num dos outros marcadores, o valor-limite para mulheres foi cerca de quatro vezes superior ao dos homens - uma diferença suficiente para que ignorá-la possa levar a classificações erradas.

Um único número fixo, como acontece na maioria dos relatórios laboratoriais, falharia em muitos doentes idosos.

Identificar a “zona cinzenta”

Algumas das observações mais marcantes vieram de um grupo mais pequeno. Nove doentes encontravam-se numa “zona cinzenta” clínica.

Tinham sofrido uma queda potencialmente importante e sentiram-se mal depois, mas não apresentavam os sinais externos claros de que os médicos precisam para diagnosticar uma concussão.

Até há pouco tempo, estes casos ficavam por esclarecer: eram enviados para casa ou mantidos sob vigilância sem uma resposta concreta.

Dependente de actualizações

Novas orientações de 2023, que distinguem casos confirmados de casos suspeitos, deram à equipa um motivo para testar se as amostras de sangue conseguiriam detetar lesões cerebrais.

O sangue deu uma resposta clara. Quando comparados com valores-limite ajustados à idade e ao sexo de cada pessoa, a maioria destes doentes incertos ultrapassou o patamar de lesão.

Foram observados níveis elevados em seis dos nove doentes para GFAP e em oito dos nove para um segundo marcador, a tau derivada do cérebro.

Até então, ninguém tinha mostrado que uma colheita de sangue poderia fornecer evidência objetiva quando, num doente idoso, a lesão se escondia por trás de um exame clínico normal.

Para os doentes nesse meio-termo incerto, um valor numérico pode agora inclinar a decisão para a existência de dano real. Isto trouxe evidência objetiva onde antes quase não existia.

Um novo sistema de alerta

O que o estudo demonstra de forma concreta é o seguinte: em adultos com mais de 60 anos, os níveis de GFAP podem ser comparados com valores-limite ajustados à idade e ao sexo.

Com esses limiares ajustados, os clínicos conseguem assinalar uma lesão cerebral até três dias após uma queda.

Isto poderá oferecer um sinal mais objetivo do que listas de sintomas, mesmo quando um exame de imagem ao cérebro parece normal.

O estudo foi pequeno, decorreu num único hospital australiano e incluiu sobretudo voluntários brancos, pelo que estes valores-limite precisam de ser testados em grupos maiores e mais diversos.

A adopção no mundo real também tem sido lenta, como já apontou investigação anterior na área. Ainda assim, a direção é evidente.

Para um doente idoso após uma queda, uma única colheita de sangue poderá em breve transformar a suspeita do médico em evidência objetiva. E, por sua vez, os laboratórios deverão ponderar cada resultado em função da idade e do sexo do próprio doente.

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